Que as folhas murchem. Deixa-as cair e perder-se, e não o lamentes!

NIETZSCHE, F.,  1844-1900. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém.  Tradução Mário da Silva.  14. ed.  Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. 381p.

Já murcho e cinzento, ai de mim, está tudo o que, neste prado, não há muito, ainda era verde e colorido? E quanto mel de esperança daqui levei para as minhas colméias!

Todos esses jovens corações já se tornaram velhos – e nem, ao menos, velhos! somente cansados, comuns, acomodados.  Chamam a isso “voltamos a ser devotos”.

Ainda não há muito, via-os saírem de manhã cedo, com pés valentes; mas seus pés do conhecimento cansaram-se e eles, agora, caluniam até a própria valentia matutina!

Em verdade, mais de um deles movia, outrora, a perna, como um dançarino, a um sinal do riso da minha sabedoria; – depois, arrependeu-se. Vi-o, ainda há pouco, curvado – rastejando para a cruz.

Em volta da luz e da liberdade esvoaçavam, outrora, como as mariposas e os poetas jovens. Um pouco mais velhos, um pouco mais frios: e já estão sentados perto da estufa, amigos da escuridão e do cochicho.

Caiu-lhes o coração aos pés porque a solidão me tragou como uma baleia? Por longo tempo e ansioso, ficou seu ouvido, em vão, à escuta dos meus toques de clarim e pregões de arauto?

Ah, são sempre apenas poucos, aqueles cujo coração guarda longamente a coragem e o entusiasmo; nesses, também o espírito se conserva paciente. O resto, porém, é covarde.

O resto: são sempre o maior número, o banal, o supérfluo, os muitos-demais – todos esses são covardes!-

Mas quem for de minha espécie deparará, em abundância, com aventuras como as minhas; de tal sorte que seus primeiros companheiros deverão ser cadáveres e palhaços.

Seus segundos companheiros, porém – esses se chamarão os seus fiéis: um vivo enxame, muito amor, muita doidice, muita imberbe veneração.

A esses fiéis não deverá prender seu coração quem, entre os homens, for de minha espécie; nessas primaveras e prados multicores não deverá acreditar, quem conhece a lábil e covarde espécie humana.

Pudessem eles de outra maneira, também haveriam de querer de outra maneira. Os meios-termos estragam todo o inteiro. Que as folhas murchem – que há nisso a lamentar!

Deixa-as cair e perder-se, ó Zaratustra, e não o lamentes!  É ainda preferível soprar no meio delas com farfalhantes ventos – soprar no meio dessas folhas, ó Zaratustra, para que tudo o que é murcho fuja ainda mais depressa para longe de ti!

 

 

Que as folhas murchem. Deixa-as cair e perder-se, e não o lamentes!

Aqueles cuja lâmpada noturna ilumina o mundo!*

SCHOPENHAUER, A., 1788-1860. O mundo como vontade e representação. Tradução M. F. Sá Correia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2001.  431p.

Que força e que intensidade de visão neste quadro homérico de Até, o espírito malfazejo: “Os seus pés são delicados visto que nunca pisa o chão, mas só caminha sobre a cabeça dos humanos!”(Ilíada, 19, 91). Que poderoso efeito produziu Menenius Agripa com a sua fábula Os membros e o estômago, sobre o povo retirado no monte Sagrado! No começo do sétimo livro da República, na já citada alegoria da caverna, que magnífica expressão Platão dá a um dogma filosófico de elevada abstração! Uma outra alegoria de um sentido filosófico muito profundo é a de Perséfones que, por ter saboreado uma romã nos infernos, é condenada a permanecer lá: este mito é singularmente esclarecido e ilustrado pela consagração inestimável que Goethe lhe deu tratando-o como episódio no seu Triunfo da sensibilidade. Conheço três obras de longo fôlego; a primeira confessa e expõe as suas intenções: é o incomparável Criticon de Balthasar Gratian; compõe-se de um amplo e rico tecido de alegorias ligadas entre si; elas são cheias de sentido; é como uma roupa transparente que cobre as verdades morais e lhes comunica a evidência intuitiva mais surpreendente, enquanto que o autor nos espanta pela sua fecundidade de invenção. As duas outras obras são mais disfarçadas: é o Dom Quixote e As viagens de Gulliver. A primeira apresenta-nos sob a forma alegórica a vida do homem que, contrariamente aos outros, renuncia a só perseguir a sua própria felicidade; ele dirige-se para uma finalidade objetiva e ideal que domina o seu pensamento, o seu querer; com tudo isto, ele desempenha no mundo uma personagem bastante estranha. Em Gulliver, basta aplicar ao moral tudo o que ele diz a respeito do físico, para compreender o que há sob a ficção do satirical rogue (do malandro satírico), como Hamlet lhe teria chamado. – Assim, na alegoria poética, é sempre o conceito que é dado, é o conceito que se procura tornar visível por meio de uma imagem; por conseguinte, pode-se sempre admitir que esta alegoria seja expressa, ou apenas confirmada, por uma imagem pintada. Todavia, esta imagem será considerada não como uma obra de arte plástica, mas como um sinal e como um hieróglifo; não provará em nada o valor do seu autor como pintor, mas apenas como poeta. Assim é a bela vinheta alegórica de Lavater, que deve provocar uma impressão tão reconfortante em todo nobre campeão da verdade: é uma mão que é picada por uma vespa; ela segura uma luz, em cuja chama se queimam mosquitos; por baixo lê-se a seguinte inscrição:

Embora consuma as asas dos mosquitos.

Embora faça estalar os seus crânios e os seus pequenos cérebros,

A luz não é menos luz;

embora picado pela vespa furiosa,

Mantenho apesar de tudo a tocha.

A este gênero pertence igualmente essa pedra tumular que representa uma luz acabada de soprar e que ainda fumega, com a inscrição:

É quando ela se extingue que se pode ver

Se era sebo ou cera. 

Assim é, finalmente, essa velha árvore genealógica alemã; trata-se de mostrar que é o último descendente de uma família muito antiga tomou a resolução de passar a vida em continência e castidade perfeitas e deixar, assim, extinguir-se a sua raça;  é representado prestes a cortar com uma tesoura as raízes da árvore de mil ramos que o vai esmagar na queda. A esta categoria ligam-se em geral as imagens alegóricas de que acabamos de falar, geralmente chamadas emblemas; poderiam ser definidos como curtas fábulas pintadas cuja moral está expressa em palavras. – É preciso fazer entrar todas as alegorias desta natureza no poema, não na pintura, e é isso que as justifica; a execução plástica permanece sempre aqui em segundo plano, e pede-se simplesmente ao desenho para representar os objetos de uma maneira reconhecível. Mas, na poesia, como nas artes plásticas, a alegoria torna-se símbolo, desde que entre o objeto representado intuitivamente e a idéia abstrata que ele exprime só exista uma relação arbitrária. Como toda representação simbólica baseia-se, em suma, numa convenção, o símbolo oferece, entre outros inconvenientes, o de deixar a sua significação sujeita ao esquecimento e às injúrias do tempo. Quem adivinharia, se não o soubesse antecipadamente, por que é que o peixe é o símbolo do cristianismo? Só Champollion, com certeza, visto que se trata apenas de um hieróglifo fonético. É por isso que hoje em dia o Apocalipse de São João se encontra como alegoria poética quase em pé de igualdade com os baixos-relevos que têm a inscrição “Magnus Deus sol Mithra”, a respeito dos quais não se deixa de discutir ainda hoje em dia.

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*Heinrich von Kleist, 1777-1811, poeta alemão.

Aqueles cuja lâmpada noturna ilumina o mundo!*

Da individualidade como um dos elementos do bem-estar

MILL, J. S., 1806-1873. Sobre liberdade. Tradução Denise  Bottmann.  Porto Alegre: L&PM, 2016. 176p.

Tais sendo as razões que tornam imperativo que os seres humanos sejam livres para formar opiniões e expressá-las sem reservas; e tais sendo as conseqüências nefastas para a natureza intelectual e, por meio dela, para a natureza moral do homem, a menos que se conceda tal liberdade ou se a defenda a despeito das proibições, examinemos a seguir se essas mesmas razões não exigem que os homens sejam livres para agir com base em suas opiniões – para adotá-las em suas vidas, sem impedimento físico ou moral por parte de seus semelhantes, desde que seja por conta e risco próprio. Essa última condição é, evidentemente, indispensável. Ninguém pretende que as ações sejam livres como as opiniões. Pelo contrário, até as opiniões perdem sua imunidade quando são expressas em circunstâncias tais que convertem essa sua expressão em franco instigação a alguma ação perniciosa. A opinião de que os comerciantes de trigo matam os pobres de fome ou que a propriedade privada é um roubo deve se manter intocada, sem ser molestada, quando é simplesmente divulgada pela imprensa, mas pode a justo título incorrer em punição quando exposta oralmente a uma turba exaltada, reunida diante do estabelecimento de um cerealista, ou divulgada entre a mesma turba por meio de um cartaz. Ações de qualquer espécie que, sem causa justificável, causem dano a terceiros podem e, nos casos mais importantes, absolutamente devem ser controladas pelos sentimentos contrários e, quando necessário, pela interferência ativa da humanidade. É até esse ponto que se deve limitar a liberdade do indivíduo; ele não pode se tornar um incômodo para os outros. Mas, se o indivíduo se abstém de molestar os outros no que lhes concerne e age meramente de acordo com sua inclinação e seu julgamento em coisas que concernem a si próprio, as mesmas razões mostrando que a opinião deve ser livre  demonstram também que lhe deve ser permitido pôr suas opiniões em prática, por conta própria, sem ser molestado. Que a humanidade não é infalível; que suas verdades, ma maioria, são apenas meias-verdades; que não é desejável uma opinião unitária, a menos que resultado mais livre e mais completo confronto com opiniões contrárias, e que a diversidade, enquanto a humanidade não for muito mais capaz do que hoje de reconhecer todos os lados da verdade, e um bem e não um mal: todos esses são princípios aplicáveis não só às opiniões, mas igualmente aos modos de ação dos homens. Assim como é útil que existam diversas opiniões  enquanto a humanidade é imperfeita, da mesma forma devem existir diversas experiências de vida; deve-se dar livre campo às diferenças de caráter, desde que não prejudiquem terceiros, e se deve provar na prática o valor de diversos modos de vida, se a pessoa julgar conveniente experimentá-los. Em suma, é desejável que, em coisas que não concernem primariamente a outrem, a individualidade pode se afirmar. Onde não é o caráter da pessoa e sim as tradições ou costumes de outras pessoas que constituem a regra de conduta, falta um dos principais ingredientes da felicidade humana e o ingrediente fundamental do progresso individual e social .

Mantendo esse princípio, a maior dificuldade que se encontra não consiste em avaliar os meios para um determinado fim; consiste na indiferença das pessoas em geral ao próprio fim em si. Se se sentisse que o livre desenvolvimento da individualidade é um dos elementos essenciais do bem-estar;  que não é apenas um elemento que vem coordenado com tudo o que se designa com os termos civilização, instrução, educação, cultura, mas é em si mesmo parte e condição necessária de todas essas coisas, não haveria o risco de se subestimar a liberdade e o ajuste dos limites entre elas, e o controle social não apresentaria qualquer dificuldade excepcional. Mas o problema é que os modos comuns de pensar dificilmente reconhecem que a espontaneidade individual tenha qualquer valor intrínseco  ou que mereça por si só qualquer apreço. Estando as pessoas satisfeitas, em sua maioria, com os modos da humanidade tais como são agora (pois são eles que as fazem como elas são), não conseguem compreender por que tais modos não hão de ser suficientemente bons para todos; e, ademais, a espontaneidade não faz parte do ideal da maioria dos reformadores morais e sociais, sendo antes vista com suspeita, como um obstáculo incômodo e talvez rebelde à aceitação geral daquilo que esses reformadores, em seu juízo pessoal, pensam ser o melhor para a humanidade. Raros são, fora da Alemanha, aqueles que sequer captam o significado da doutrina que Wilhelm von Humboldt, tão eminente como savant e como político, apresentou no texto de um tratado – que “o fim do homem, ou o que é prescrito pelos ditames eternos ou imutáveis da razão, e não sugerido por desejos vagos e passageiros, é o desenvolvimento mais alto e mais harmonioso de seus poderes para formar uma totalidade completa e coerente”; que, portanto, o objetivo “para o qual todo ser humano deve dirigir incessantemente seus esforços, e do qual não devem desviar os olhos especialmente aqueles que pretendem influenciar seus semelhantes, é a individualidade do poder e do desenvolvimento”; que há para isso dois requisitos, a “liberdade e a variedade de situações”; e que da união delas nascem “o vigor individual e a múltipla diversidade”, que se combina na “originalidade”. […]

Da individualidade como um dos elementos do bem-estar

Representações individuais e representações coletivas (continuação)

DURKHEIM, E., 1858-1917.  Sociologia e filosofia.  Tradução Fernando Andrade.  São Paulo: Ícone, 2007.  119p.

[…]  A mesma objeção pode ainda ser apresentada sob a forma seguinte.  É um lugar-comum da ciência e da filosofia que toda coisa está submetida ao devir. Mas mudar é produzir efeitos; afinal, mesmo o móvel mais passivo não deixa de participar ativamente no movimento que recebe, sendo somente pela resistência que a ele se opõe. Sua velocidade, sua direção, dependem em parte de seu peso, de sua constituição molecular, etc. Se, portanto, toda mudança supõe  nisso que muda uma certa eficácia causal e se, entretanto, a consciência, uma vez produzida, é incapaz de nada produzir, é preciso dizer que, a partir do momento em que ela existe, ela está fora do devir, Ela permaneceria, então, o que ela é enquanto é; a série de transformações de que ela faz parte pararia nela; além disso, não haveria mais nada. Ela seria, num sentido, o termo extremo do real, finis ultimus naturae.  Não há necessidade de fazer notar que uma tal noção não é pensável; ela contradiz os princípios de toda ciência. A matéria em que se extinguem as representações torna-se igualmente ininteligível desse ponto de vista; afinal, um composto que se dissolve é sempre, em alguns traços, fator de sua própria dissolução.

Parece-nos inútil discutir mais longamente um sistema que, tomado literalmente, é uma contradição nos termos. Porque a observação revela a existência de uma ordem de fenômenos chamados representações, que distinguindo-se por traços particulares dos outros fenômenos da natureza, é contrário a todo método tratá-los como se não existissem. Sem dúvida, eles têm causas, mas são causas particulares. A vida é só uma combinação de partículas minerais; ninguém imagina todavia em torná-la um epifenômeno da matéria bruta. Somente, uma vez acordada esta proposição, é preciso aceitar suas conseqüências lógicas. Todavia, existe uma, e fundamental, que parece ter escapado a vários psicólogos, e que buscaremos esclarecer.

Tornou-se quase clássico reduzir a memória a nada mais que um fato orgânico. A representação, diz-se, não se conserva enquanto tal; quando uma sensação, uma imagem, uma idéia cessou de nos ser representada, ela cessou, no mesmo ato, de existir, sem deixar nenhum traço de si. Unicamente, a impressão orgânica que precedeu essa representação não desaparece por completo: restaria uma certa modificação do elemento nervoso, que o predisporia a vibrar novamente como vibrara da primeira vez. Que uma causa qualquer vem portanto a excitá-lo, e essa mesma vibração se reproduziu e, em conseqüência, ver-se-á reaparecer na consciência o estado psíquico que já se produziu, nas mesmas condições, no momento da primeira experiência. Eis de onde provinha e em que consistia a lembrança. Seria, portanto, em conseqüência de uma verdadeira ilusão que esse estado renovado nos parece ser uma revivificação do primeiro. Na realidade, se a teoria é exata, ele constitui um fenômeno completamente novo. Não é a mesma sensação que se revela após ter sido paralisada durante algum tempo; é uma sensação inteiramente original já que não restou nada daquela que tivera lugar primitivamente. E acreditaremos realmente que jamais o experimentamos se, por um mecanismo bem conhecido, ela não viesse por si mesma se localizar no passado. Única coisa que é a mesma nas duas experiências, é o estado nervoso, condição da segunda representação como da primeira.

Esta tese não é somente a que sustenta a escola psicofisiológica; ela é admitida explicitamente por numerosos psicólogos que acreditam na realidade da consciência e chegam mesmo a ver na vida consciente a forma eminente do real. Para Léon Dumont, “quando não pensamos a idéia, ela não existe nem mesmo no estado latente; mas existe somente uma de suas condições restando como permanente, e que serve para explicar como, com o concurso de outras condições, o mesmo pensamento pode se renovar”. Uma lembrança resulta “da combinação de dois elementos: a) Uma maneira de ser do organismo; b) Um complemento de força vindo de fora”.¹  O Sr. Rabier escreve quase nos mesmos termos: “A condição da revivescência é uma excitação nova que, somando-se às condições que constituem o hábito, tem por efeito restaurar um estado dos centros nervosos (impressão) semelhante, embora ordinariamente bem frágil, àquele que provocou o estado de consciência primitivo”.² William James é mais formal ainda: “O fenômeno da retenção”, diz ele,”não é absolutamente um fato da ordem mental (it is not a fact of the mental order at all). É um puro fenômeno físico, um estado morfológico que consiste na presença de certas vias de condução na intimidade dos tecidos cerebrais”.³ A  representação se junta à reexcitação da região afetada, como ela é somada à excitação primeira: mas, no intervalo, ela deixou completamente de existir. Ninguém insiste mais vivamente que James sobre a dualidade dos dois estados e sobre sua heterogeneidade. Não há nada em comum entre eles, salvo os traços deixados no cérebro pela experiência anterior, tornando a segunda mais fácil e mais imediata. (4) A conseqüência, por outro lado, decorre logicamente do princípio mesmo da explicação.

Mas como não se percebe que como isso se retorna àquela  teoria de Maudsley que tínhamos  rejeitado em primeiro lugar, não sem desdém? (5) Se, em cada momento do tempo, a vida psíquica consiste exclusivamente nos estados atualmente dados à consciência clara, é preciso também dizer que ela se reduz a nada. Diz-se, com efeito, que o campo de visão da consciência, como diz Wundt, tem muito pouca extensão; pode-se contar seus elementos. Se, portanto, eles são os únicos fatores psíquicos de nossa conduta convém admitir que esta é  inteiramente colocada sob a dependência exclusiva de causas psíquicas. O que nos dirige, não são os hábitos inquietos, os preconceitos, as tendências que nos movem sem que justifiquemos, é, numa palavra, tudo o que constitui nosso traço moral. Se, portanto, nada disso tudo é mental, se o passado só sobrevive em nós sob forma material, é propriamente o organismo que conduz o homem. Afinal, o que a consciência pode alcançar desse passado num instante dado não e nada ao lado disso que dele resta desapercebido e, de um outro lado, as impressões inteiramente são uma ínfima exceção. De resto, a sensação pura, na medida em que ela existe, e, de todos os fenômenos intelectuais, aquele ao qual a palavra epifenômenos poderia menos impropriamente se aplicar. Afinal, está claro que ela depende estritamente da disposição dos órgãos, a menos que um outro fenômeno mental não intervém e não a modifica, e, nesse caso, ela não é mais sensação pura.

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¹”De l’habitude”, in Revue philos., I, pp. 350, 351.

² Leçons de philosophie, I,p. 164.

³ Principles of Psychology, I, p. 655.

4. Ibid., p. 656.

5. Ibid., pp. 138-145.

 

Representações individuais e representações coletivas (continuação)

Um autor não oculto

MORIN, E., 1921-. Introdução ao pensamento complexo. Tradução Eliane Lisboa.  5. ed.  Porto Alegre: Sulina, 2015.  120p.

Devo responder às questões a meu respeito? Escutem, não vou responder sobre as coisas mais subjetivas, ainda que minha subjetividade tenha vontade de lhes responder. Mas, ainda assim, talvez deva exprimir a consciência de existir pessoalmente em minha obra. Sou um autor não oculto. Quero dizer com isso que me diferencio dos que se dissimulam atrás da aparente objetividade de suas ideias, como se a verdade anônima falasse por sua pena.

Ser autor é assumir suas ideias no melhor e no pior. Sou um autor que, além disso, se autodesigna. Preciso dizer que essa exibição comporta também a humildade. Entrego minha dimensão subjetiva, coloco-a na mesa, dando ao leitor a possibilidade de detectar e de controlar minha subjetividade. Tento ser denotativo ao dar definições e creio definir todos os conceitos que prenuncio. Mas, uma vez colocada a definição, deixo-me levar pela linguagem, com tudo o que se o faz. Além disso, sabe-se que a história das ciências é feita de migração de conceitos, isto é, literalmente de metáforas.

O conceito de trabalho, de origem antropossociológica, tornou-se um conceito físico. O conceito científico de informação, provindo do telefone, tornou-se um conceito físico, depois migrou à biologia, onde os genes se tornaram portadores de informação.

 

A migração dos conceitos

Os conceitos viajam e é melhor que viajem sabendo que viajam. É melhor que não viajem clandestinamente. É bom também que eles viajem sem serem percebidos pelos aduaneiros!  De fato, a circulação clandestina dos conceitos ao menos permitiu às disciplinas respirar, se desobstruir. A ciência estaria totalmente atravancada se os conceitos não migrassem clandestinamente. Mendelbrot dizia que as grandes descobertas são frutos de erros na transferência dos conceitos de um campo a outro, realizadas, acrescentava ele, pelo pesquisador de talento. É preciso talento para que o erro se torne fecundo. Isso mostra também a relatividade do papel do erro e da verdade.

Vocês fizeram alusão a minha tendência aos jogos de palavras como “os limites da consciência e a consciência dos limites”. Hegel, Marx, Heidegger dedicaram-se aos jogos de palavras. Isso me diverte. Muitos amigos, ao lerem meus manuscritos, me disseram:”Retire estes trocadilhos, os cientistas não vão te levar a sério!”. Fui tentado a seguir o conselho de meus amigos. Depois disse: não, eu estaria me lesando. Quis me dar um pequeno prazer subjetivo complementar. É grave?  Creio que não é somente o autor, mas também as palavras que brincam com elas mesmas. Como dizia o poeta, as palavras fazem amor. Na fórmula citada sobre os limites da consciência, o que é interessante é o balanço e o retorno: você inverte, você permuta os termos e o predicado vira sujeito, o sujeito predicado. Por aí mesmo, você opera eventualmente um movimento circular e o pensamento recomeça, de uma maneira recursiva. É o efeito que retroage sobre a causa e o produto que se volta sobre o produtor. Essa própria ideia de circularidade recursiva  pode ser dita poeticamente. Gérard de Nerval disse: “A décima terceira retorna, é sempre a primeira”. Vocês não dirão “senhor, por que o senhor fala desse modo? Pode-se simplesmente dizer que quando forem treze horas é uma hora e pronto”. Mas vocês perdem o círculo. Ou, como diz Elliot: “O fim está no ponto de partida”. Compreende-se muito bem o que ele quer dizer. Deve-se compreender que as metáforas fazem parte da convivialidade da linguagem e da convivialidade das ideias.

Um autor não oculto

Duas coisas enchem o ânimo de admiração […]: o céu estrelado acima de mim e a lei moral em mim

KANT, I., 1724-1804. Crítica da razão prática.  Tradução Valerio Rohden.  3. ed.  São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011. 294p.

 

Conclusão. Duas coisas enchem o ânimo de admiração e veneração sempre nova e crescente, quanto mais freqüente e persistentemente a reflexão ocupa-se com elas;  o céu estrelado acima de mim e a lei moral em mim. Não me cabe procurar e simplesmente presumir ambas como envoltas em obscuridade, ou no transcendente além de meu horizonte; vejo-as [289] ante mim e conecto-as imediatamente com a consciência de minha existência. A primeira começa no lugar que ocupo no mundo sensorial externo e estende a conexão, em que me encontro, ao imensamente grande com mundos sobre mundos e sistemas de sistemas e, alem disso, ainda a tempos ilimitados de seu movimento periódico, seu início e duração. A segunda começa em meu si-mesmo [Selbst] invisível, em minha personalidade, e expõe-se em um mundo que tem verdadeira infinitude, mas que é acessível somente ao entendimento e com o qual (mas deste modo também ao mesmo tempo com todos aqueles mundos visíveis) reconheço-me, não como lá, em ligação meramente contingente mas em conexão universal e necessária. O primeiro espetáculo de uma inumerável quantidade de mundos como que aniquila minha importância enquanto criatura animal, que tem de devolver novamente ao planeta (um simples ponto no universo a matéria da qual ela se formara, depois que fora por um curto espaço de tempo (não se sabe como) dotada de força vital. O segundo espetáculo, ao contrário, eleva infinitamente meu valor enquanto inteligência, mediante minha personalidade, na qual a lei moral revela-me uma vida independente da animalidade e mesmo de todo o mundo sensorial, pelo menos o quanto se deixa depreender da determinação conforme a fins de minha existência por essa lei, que não está circunscrita a condições e limites [290] dessa vida mas penetra o infinito.

No entanto admiração e respeito podem, em verdade, estimular a investigação mas não substituir a sua falta. Que é que se precisa, pois, fazer para pôr em marcha esta investigação de modo útil e adequado à sublimidade do objeto? Exemplos podem servir aqui de advertência, mas também para a imitação. A contemplação do mundo começou do mais grandioso espetáculo que só os sentidos humanos podem sempre oferecer e que só o nosso entendimento, em sua vasta abrangência, pode sempre suportar perseguir, e terminou – na astrologia. A moral começou na mais nobre propriedade da natureza humana, cujo desenvolvimento e cultura voltam-se a uma utilidade infinita, e terminou – no fanatismo [Schwärmerei] ou na superstição. Assim se passa com todas as tentativas ainda rudes, nas quais a parte mais nobre do ofício depende do uso da razão, que não se verifica por si mesmo, como o uso dos pés, pelo exercício freqüente, principalmente se ele concerne a propriedades que não podem apresentar-se tão imediatamente na experiência comum. Mas depois que, embora tardiamente, entrou em voga a máxima de examinar antes bem todos os passos que a razão se propõe dar, e de não a deixar seguir o seu curso de outro modo que na linha de um método bem refletido o [291] ajuizamento do sistema do universo tomou uma direção totalmente diversa e, com essa, ao mesmo tempo uma saída incomparavelmente mais feliz. A queda de uma pedra, o movimento de uma funda, resolvidos em seus elementos e nas forças que neles se mostram e elaborados matematicamente, produziram enfim na estrutura do mundo aquela perspiciência clara e imutável para todo o futuro, que pela observação continuada só pode esperar ampliar-se sempre mas jamais deve temer que tenha de voltar atrás.

Aquele exemplo [Beispiel] (243) pode aconselhar-nos a encetar agora este caminho no tratamento das disposições morais de nossa natureza e dar-nos esperança de um bom êxito semelhante. Pois temos à mão os exemplos da razão que julga moralmente. Ora, analisando-os em seus conceitos elementares, propondo-se – mediante repetidos ensaios sobre o entendimento comum – na falta da Matemática, um procedimento contudo semelhante à Química, de separar o empírico do racional suscetível de encontrar-se neles, podem ambos os elementos ser com certeza reconhecidos por nós em sua pureza e o que cada um possa por si só realizar. Deste modo pode em parte evitar-se a desorientação de um ajuizamento ainda rude e pouco exercitado e, em parte (o que é de longe mais necessário), as extravagâncias do gênio, pelas quais, como sói acontecer com os adeptos da pedra da sabedoria, sem nenhuma investigação metódica [292] e nenhum conhecimento da natureza são prometidos tesouros sonhados e são dissipados tesouros verdadeiros. Em uma palavra, a ciência (buscada criticamente e introduzida metodicamente) é a porta estreita que conduz à doutrina da sabedoria, se por esta não se entender simplesmente o que se deve fazer mas o que deve servir de norma a mestres para aplanar bem e demarcadamente o caminho da sabedoria, que cada qual deve seguir, e proteger a outros de caminhos falsos; uma ciência cuja guardiã tem que permanecer sempre a Filosofia, em cuja investigação sutil o público não tem de tomar nenhuma parte, mas certamente nas doutrinas, que após uma tal elaboração podem tornar-se pela primeira vez verdadeiramente claras a ele.

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243. Sobre a diferença de sentido entre os termos alemães Beispiel e Exempel. cf. MS/T A 168, AK 480, nota.

Duas coisas enchem o ânimo de admiração […]: o céu estrelado acima de mim e a lei moral em mim

O ópio do povo

VARGAS L., M., 1936-. A civilização do espetáculo: uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura.  Tradução Ivone Benedetti.  Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.  207p.

Ao contrário do que imaginavam os livres-pensadores, agnósticos e ateus dos séculos XIX e XX, na era pós-moderna a religião não está morta e enterrada nem foi posta no desvão das coisas imprestáveis: está viva e ativa, ocupando um lugar central na atualidade.

Não há como saber, evidentemente, se o fervor dos crentes e praticantes das diversas religiões existentes no mundo aumentou ou diminuiu. Mas ninguém pode negar a presença que o tema religioso tem na vida social, política e cultural contemporânea, provavelmente igual ou superior à que tinha no século XIX, quando as lutas intelectuais e cívicas favoráveis ou contrárias ao laicismo eram preocupação central em grande número de países de ambos os lados do Atlântico.

Para começar, o grande protagonista da política atual, o terrorista suicida, visceralmente ligado à religião, é um subproduto da versão mais fundamentalista e fanática do islamismo. O combate da Al-Qaeda e seu líder, o finado Osama bin Laden, não devemos esquecer, é acima de tudo religioso, ofensiva purificadora contra os maus mulçumanos e renegados do islã, assim como contra os infiéis, nazarenos (cristãos) e degenerados do Ocidente encabeçados pelo Grande  Satã, os Estados  Unidos. No mundo árabe a confrontação que mais violências gerou tem caráter inequivocamente religioso, e o terrorismo islamita fez até agora mais vítimas entre os próprios mulçumanos que entre os seguidores de outras religiões. Principalmente se levarmos em conta o número de iraquianos mortos ou mutilados por obra dos grupos extremistas xiitas e sunitas, bem como os assassinados no Afeganistão pelos talibãs, movimento fundamentalista nascido nos madraçais ou escolas religiosas afegãs e paquistaneses, que, assim como a Al- Qaeda, nunca vacilou em assassinar muçulmanos que não compartilhem seu puritanismo fundamentalista.

As divisões e os conflitos diversos que percorrem as sociedades muçulmanas não contribuíram em nada para atenuar a influência da religião na vida dos povos, e sim para exacerbá-la. Em todo o caso, não é o laicismo que ganhou terreno; ao contrário, em países como o Líbano e a Palestina, os focos laicistas encolheram nos últimos anos com o crescimento, com forças políticas,  do Hezbolá (“Partido de  Deus”) libanês e do Hamás, que obteve o controle da Faixa de Gaza em eleições limpas. Esses partidos, assim com o Jihad Islâmico da Palestina, têm origem fundamentalmente religiosa. E, nas primeiras eleições livres realizadas na história da Tunísia e do Egito, a maioria dos votos favoreceu os partidos islâmicos (mais moderados).

Enquanto isso ocorre no seio do islamismo, não se pode dizer que a convivência entre as diversas denominações, igrejas e seitas cristãs seja sempre pacífica. Na Irlanda do Norte a luta entre a maioria protestante e a minoria católica, agora interrompida (oxalá para sempre), deixou uma espantosa quantidade de mortos e feridos pelas ações criminosas dos extremistas de ambos os lados. Também nesse caso o conflito político entre unionistas e independentistas foi acompanhado por um antagonismo religioso simultâneo e mais profundo, como entre as facções adversárias do islã.

O catolicismo vive grandes conflitos em seu seio. Até há alguns anos, o mais intenso era entre os tradicionalistas e os progressistas promotores da Teologia da Libertação, luta que, depois da entronização de dois pontífices da linha conservadora – João Paulo II e Bento XVI – parece ter-se resolvido, por enquanto, com o encurralamento (não a derrota) desta última tendência. Agora, o problema mais agudo enfrentado pela Igreja católica é a revelação de uma poderosa tradição de violações e pedofilia em colégios, seminários, albergues e paróquias, truculenta realidade sugerida havia anos por indícios e suspeitas que, durante muito tempo, a Igreja conseguiu silenciar. Mas, nos últimos anos, em vista de ações e denúncias judiciais das próprias vítimas, esses abusos sexuais foram vindo à tona em tão grande número que não se pode falar de casos isolados, mas sim de práticas muito disseminadas no espaço e no tempo. O fato provocou arrepios no mundo inteiro, sobretudo entre os próprios fiéis. O aparecimento de testemunhos de milhares de vítimas em quase todos os países católicos levou a Igreja em certos lugares, como a Irlanda e os Estados Unidos, à beira da falência em vista das elevadíssimas somas que se viu obrigada a gastar na defesa perante os tribunais ou no pagamento por danos e prejuízos causados às vítimas de violações e maus-tratos sexuais cometidos por sacerdotes. Apesar de seus protestos, está evidente que pelo menos parte da hierarquia eclesiástica – as acusações nesse sentido atingiram o próprio pontífice – foi cúmplice dos religiosos pedófilos e violadores, protegendo-os, negando-se a denunciá-los às autoridades e limitando-se a mudá-los de lugar, sem os afastar de suas tarefas sacerdotais, entre as quais o ensino de menores. A severíssima punição por parte do  XVI dos Legionários de Cristo, declarando sua reorganização integral, e de seu fundador, o padre Marcial Maciel, mexicano, bígamo, incestuoso, vigarista, estuprador de meninos e meninas, inclusive de um de seus próprios filhos – personagem que parece saído dos romances do marquês de Sade -, não dissipa as sombras que tudo isso lançou sobre uma das mais importantes religiões do mundo.
Todo esse escândalo contribuiu para reduzir a influência da Igreja católica? Eu não me atreveria a afirmá-lo. É verdade que em muitos países fecham-se seminários por falta de noviços, e que, em comparação com o que ocorria antes, esmolas, doações, heranças e legados que a Igreja recebia diminuíram. Mas, num sentido não numérico, seria possível dizer que as dificuldades aguçaram a energia e a militância dos católicos, que nunca estiveram mais ativos em suas campanhas sociais manifestando-se contra casamentos gays, legalização do aborto, práticas anticoncepcionais, eutanásia e laicismo. Em países como a Espanha a mobilização católica – tanto na hierarquia como das organizações seculares da Igreja -, de impressionante amplitude, em alguns momentos atinge tal virulência que de modo algum se poderia considerar tratar-se de uma Igreja em retirada ou com a corda no pescoço. O poder político e social, exercido na maior parte dos países latinos-americanos pela Igreja católica, continua incólume, e a isso se deve o fato de, em matéria de liberdade sexual e da liberação da mulher, os avanços serem mínimos. Na grande maioria de países ibero-americanos, a Igreja católica conseguiu que a “pílula” e a “pílula do dia seguinte” continuem sendo ilegais, assim como toda e qualquer forma de prática anticonceptiva. A proibição, claro, só é efetiva para as mulheres pobres, pois da classe média para cima os anticoncepcionais, assim como o aborto, são amplamente utilizados, apesar da proibição legal.
Coisa parecida pode ser dita das igrejas protestantes. Muitas vezes com o apoio dos católicos, nos Estados Unidos elas tomaram a iniciativa de mobilizar-se para que o ensino escolar se ajustasse aos postulados da Bíblia, e seja abolida dos currículos a teoria de Darwin sobre a seleção das espécies e a evolução, sendo esta substituída pelo “criacionismo”, ou “projeto inteligente”, postura anticientífica que, por mais anacrônica e obscurantista que pareça, não é impossível que chegue a prevalecer em certos estados norte-americanos onde a influência religiosa é muito grande no campo político. […]

O ópio do povo