Tipologia psicológica¹

JUNG, C. G., 1875-1961.  Tipos psicológicos. Tradução L. M. Orth.  4.ed.  Petrópolis: Vozes, 2011.   614 p.

Caráter é a forma individual estável da pessoa. A forma é de natureza corporal e também psíquica, por isso a caracterologia em geral é uma doutrina das características tanto físicas quanto psíquicas. A enigmática unidade da natureza viva traz consigo que a característica corporal não é simplesmente corporal e a característica psíquica não é simplesmente psíquica, pois a continuidade da natureza não conhece aquelas incompatibilidades e distinções que a razão humana precisa colocar a fim de poder entender. A separação entre corpo e alma é uma operação artificial, uma discriminação que se baseia menos na natureza das coisas do que na peculiaridade da razão que conhece. A intercomunicação das características corporais e psíquicas é tão  íntima que podemos tirar conclusões não só a partir da constituição do corpo sobre a constituição da psique, mas também da particularidade psíquica sobre as correspondentes formas corporais dos fenômenos. É verdade que o último processo é bem mais difícil, não porque o corpo é menos influenciado pela psique do que a psique pelo corpo, mas porque, partindo da psique, temos que concluir do desconhecido para o conhecido, enquanto que no caso inverso temos a vantagem de começar pelo conhecido, ou seja, pelo corpo visível. Apesar de toda a psicologia que acreditamos hoje possuir, a alma continua sendo bem mais obscura do que a superfície visível do corpo.  A psique continua sendo um terreno estranho, pouco explorado, do qual temos notícias apenas por vias indiretas, fornecidas pelas funções da consciência que, por sua vez, estão expostas a possibilidades de erro quase infindas. […]

E aqui se apresenta a dificuldade principal do problema tipológico, isto é, a questão de padrões ou critérios. O critério astrológico era simples: consistia na constelação imperante na hora do nascimento. A questão de saber como o zodíaco e os planetas podiam conter qualidades temperamentais penetra no obscuro nevoeiro da pré-história e fica sem resposta. O critério dos quatro temperamentos psicológicos da Antiguidade era a aparência e o comportamento do indivíduo, exatamente como tipificação psicológica atual. Mas, qual deve ser o critério de uma tipologia psicológica?

Lembremos o exemplo dos indivíduos que deviam passar por sobre um riacho. Como e segundo que pontos de vista devemos classificar suas motivações habituais? Um deles o faz por diversão, outro porque se não o fizesse seria pior, um terceiro não o faz porque tem outra opinião etc. A série de possibilidades parece infinda e sem maiores perspectivas para o problema.

Não sei como os outros procedem em relação a esta tarefa. Só posso dizer como eu tratei o assunto e, quando me objetam que meu modo de resolver o problema é apenas o meu preconceito pessoal, devo concordar. E esta objeção é tão válida que eu não saberia defender-me contra ela. Só me ocorre trazer o exemplo de Colombo que, baseado em suposições subjetivas, em falsa hipótese, e seguindo caminho abandonado pelos navegadores da  época, descobriu a América. Aquilo que contemplamos e o modo como o contemplamos sempre o fazemos com nossos próprios olhos. Por isso a ciência não é feita por um só, mas sempre exige o concurso de muitos. O indivíduo pode dar sua contribuição e, neste sentido, ouso falar do meu modo de ver as coisas.

Minha profissão obrigou-me desde sempre a levar em consideração a peculiaridade dos indivíduos e a especial circunstância de que ao longo dos anos – não sei quantos – ter que tratar de inúmeros casais ligados pelo matrimônio e ter que torná-los plausíveis um ao outro, homem e mulher, enfatizou mais ainda a obrigação e necessidade de estabelecer certas verdades médias. Quantas vezes, poe exemplo, tive de dizer: “Sua mulher é de constituição tão ativa que não se pode esperar que sua vida toda se resuma a cuidar do lar”. Isto já é uma tipificação, uma espécie de verdade estatística. Existem naturezas ativas e passivas. Mas esta verdade rudimentar não me satisfazia. Minha próxima tentativa foi dizer que havia algo como naturezas reflexivas e irrefletidas, pois percebera que muitas naturezas aparentemente passivas não eram, na verdade, tão passivas, mas sim premeditativas. Essas examinam, primeiro, a situação e só depois agem; e por assim procederem habitualmente, desperdiça oportunidades onde é preciso agir imediatamente, sem premeditação, dando a impressão de serem passivas. Os irrefletivos sempre me pareciam pessoas que saltavam para dentro de uma situação com os dois pés, para só então pensarem que talvez tivessem entrado num brejo. Podíamos, portanto, designá-los irrefletidos, o que parecia mais adequado do que ativos, pois a premeditação do outro é,  às vezes, uma atividade muito importante e um agir muito responsável em vista do fogo de palha impensado de uma simples ocupação. Mas de pronto descobri que a lentidão de um nem sempre era premeditação e o agir rápido de outro também não era irreflexão. A hesitação do primeiro repousa muitas vezes numa timidez habitual ou, ao menos, num retroceder instintivo diante de tarefa grande demais; a atividade imediata do outro se torna possível devido a uma autoconfiança quase desmedida em relação ao objeto. Esta observação fez com que eu formulasse a tipificação da seguinte maneira: existe toda uma classe de pessoas que, no momento de reagir a uma situação dada, primeiro se retrai, dizendo “não” em voz baixa, e só depois chega a reagir; e outra classe que reage imediatamente diante da mesma situação, aparentando plena confiança de que seu procedimento está correto. A primeira classe seria caracterizada por uma certa relação negativa com o objeto e a segunda, por uma relação positiva.

Como se pode ver, a primeira classe corresponde à atitude introvertida e a segunda à atitude extrovertida. […]

Introversão e extroversão como tipos de atitudes significam um preconceito que condiciona todo o processo psíquico, porque estabelecem o modo habitual de reação e, portanto, determinam não apenas o modo de agir, mas também o modo de ser da experiência subjetiva e o modo de ser da compensação pelo inconsciente.

A determinação do hábito de reagir tem que acertar no alvo, pois o hábito é de certa forma uma central de comutação a partir da qual é regulado, por outro lado, o agir externo, e, por outro, é configurada na experiência específica. Certo modo de agir traz resultados correspondentes e a compreensão subjetiva dos resultados faz surgir experiências que, por sua vez, voltam a influenciar o agir e, dessa forma, traçam o destino individual, segundo o ditado: “Cada qual é o autor de seu destino”. […]

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¹ Conferência pronunciada no encontro de médicos de doentes mentais, Zurique, 1928, Cf. Seelen probleme der Gegenwart, p.101s.

 

 

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Tipologia psicológica¹

Contexto e cognição

DIJK, T. A. van, 1943 – . Discurso e contexto: uma abordagem sociocognitiva. Tradução Rodolfo Ilari.  São Paulo: Contexto, 2012.  330 p.

Uma das principais teses deste livro é que os contextos não são um tipo de situação social objetiva, e sim construtos dos participantes, subjetivos embora socialmente fundamentados, a respeito das propriedades que para eles são relevantes em tal situação, isto é, modelos mentais. O presente capítulo detalha essa proposta, elaborando uma teoria dos modelos de contexto  como um tipo especial  de modelos da experiência do dia a dia, representados na memória episódica dos participantes do discurso. Supõe-se que esses modelos de contexto controlam muitos aspectos da produção e compreensão de textos e falas. Isso significa que os usuários da língua não estão apenas envolvidos em processar o discurso; ao mesmo tempo, eles também estão engajados em construir dinamicamente sua análise e interpretação subjetiva on-line.

Existe uma vasta quantidade de trabalhos psicológicos sobre as propriedades do contexto e sobre o  estudo do processamento do discurso (Graesser,  Gernsbacher e Goldman, 2003). Todavia, até o momento, ainda não temos uma teoria cognitiva de conjunto do contexto como um tipo de modelo mental. A verdade é que a maioria dos trabalhos psicológicos que usam o termo ‘contexto’ tratam, de fato, daquilo que é conhecido como contexto verbal ou ‘cotexto’, isto é, a parte de um discurso que constitui o entorno de outras partes (ver, por exemplo, Cook e Myers, 2004: 268-288)). E nos textos em que é estudado o contexto social ou comunicativo, isso acontece costumeiramente em termos de uma ou mais variáveis independentes, às vezes também resumidas pelo rótulo de ‘diferenças individuais’, que podem incluir tarefas, relevância ou objetivos específicos (como, por exemplo, em Perfetti, 1983: 137-161; Lehman e Schraw, 2002: 738-750), idade (e.g. Miller, 2003: 217-223), gênero social (e.g., Rice, 2000: 211-236; Slotte, Lonka e Lind mentais para o discurso e o uso da língua foi proposta de maneira independente no começo dos anos 1980 por Johnson-Laird (19830blom-Ylänne, 2001: 255-272), ou circunstâncias pessoais, por exemplo, na interpretação de perguntas com caráter de súmula (Schober e Conrad, 1997: 576-602). Um dos traços contextuais mais amplamente estudados na Psicologia da Linguagem é o conhecimento compartilhado, ou ‘base comum’ (Clark, 1996) […]

Modelos mentais

Se os contextos são algum tipo de modelo mental, precisamos, em primeiro lugar, resumir algumas das propriedades gerais dos modelos mentais. Depois das primeiras propostas de Kenneth Craik (1943) sobre os ‘modelos em escala reduzida’ do mundo, a teoria dos modelos  mentais para o discurso e o uso da língua foi proposta de maneira independente no começo dos anos 1980 por Johnson-Laird (1983) e por Van Dijk e Kintsch (1983),  embora em quadros teóricos bastante diferentes (ver também Gentner e Stevens, 1983; sobre os tratamentos atuais dos modelos mentais, ver Oakhill e Garnham, 1996; Van Oostendorp e Goldman, 1999; para uma resenha detalhada das pesquisas sobre modelos ‘de situações’, ver Zwaan e Radvansky, 1998).

Johnson-Laird (1983) postulou modelos mentais com o objetivo de resolver alguns problemas de inferência. Os usuários da língua, além de atuar com sequências lineares de proposições, precisam também ter alguma representação ‘analógica’ da realidade para derivar inferências aceitáveis de um texto. A noção de modelo mental de Johnson-Laird tem por isso mesmo uma estreita relação com a teoria dos modelos da Lógica, ou seja, com a Semântica Formal. Contudo, sua abordagem é uma correção psicológica importante dos tratamentos formais quando aplicados à compreensão do  discurso.

Van Dijk e Kintsch (1983) também postularam uma teoria dos modelos mentais, chamada ‘modelos de situação’, com o objetivo de explicar como as pessoas compreendem o discurso, no âmbito de uma teoria mais geral do processamento do discurso mediante estratégias. As propostas sobre compreensão do discurso feitas até aquele momento limitavam-se a algum tipo de representação mental dos sentidos de textos locais e globais (sentidos referentes ao tema ou assunto).

Modelos mentais e coerência do discurso

A teoria dos ‘modelos de situações’ conseguiu explicar um grande número de problemas que não tinha sido possível equacionar aplicando as abordagens cognitivas tradicionais à Semântica Cognitiva, tais como as condições de coerência e correferência local e global ou as lembranças erradas, as lembranças entre meios diferentes [cross-media recalls], as relações entre sentido e conhecimento, e assim por diante (para uma súmula das várias funções dos modelos mentais, ver Zwaan e Radvansky, 1998). A tese crucial de um modelo mental é que, além da representação do sentido de um texto, os usuários da língua também constroem modelos mentais dos eventos que são assunto desses textos, isto é, a situação que eles têm como denotação ou referência – daí o nome de ‘modelos de situação’ escolhido por Van Dijk e Kintsch (1983).

Desse modo, a Psicologia conseguiu pela primeira vez lidar com a noção fundamental de referência e correferência e explicar por que não é só o sentido, mas também a referência a ‘fatos’ relacionados, que constitui a base da noção crucial de coerência (Van Dijk, 1977). Nesse sentido, uma sequência de sentenças de um texto é coerente se os usuários da língua forem capazes de construir modelos mentais dos eventos ou fatos sobre os quais estão falando ou ouvindo, e se forem capazes de relacionar entre si os eventos ou fatos que estão nesses modelos, por exemplo por meio de relações de temporalidade ou causalidade.

De maneira mais geral e abstrata, essa definição de modelos mentais é coerente com as teorias formais do sentido e da interpretação. De acordo com essas duas perspectivas sobre a língua, podemos simplesmente dizer que um discurso é significativo (verdadeiro, falso) se ele tiver um modelo (para detalhes, vejam-se, por exemplo, Portner, 2005; Portner e Partee, 2002).

Nos tratamentos psicológicos, esses modelos são modelos mentais dos usuários da língua, e sua capacidade de serem significativos é definida relativamente aos modelos de falantes ou receptores. Aquilo que faz sentido para o falante, obviamente, pode não fazer sentido ( ou pode não fazer sentido de todo), para o receptor: o falante e o receptor podem ter modelos que se superpõem, mas que são diferentes, ou seja, podem interpretar de maneiras diferentes o ‘mesmo’ discurso.

Em vez de tratamentos complexos e incompletos da coerência dos discursos em termos de relações de significado, como têm sido propostos nas abordagens do discurso inspiradas pela Semântica Estrutural, Funcional e Gerativa, os modelos mentais proporcionam um tratamento simples, elegante e poderoso da coerência local e global, bem como de muitos outros aspectos da compreensão e produção de discursos.

Incidentalmente, é importante distinguir essas formas de coerência semântica, baseadas em modelos mentais, dos modos como essa coerência pode (ou não pode) ser expressa ou sinalizada mo texto ou na fala, por exemplo, por artigos definidos, pronomes e outras pró-formas, demonstrativos, advérbios, pela estruturação da sentença em tópico e comentário, e assim por diante. Essas manifestações na estrutura de superfície de uma coerência semântica subjacente são habitualmente chamadas de ‘coesão’ (Halliday e Hasan, 1976). É preciso ressaltar que os mecanismos coesivos não são manifestações nem necessárias nem suficientes da coerência semântica, motivo pelo qual a coesão gramatical não deve ser confundida com a coerência semântica – como acontece com bastante frequência.

À diferença das abordagens ‘interpretativas’ habituais da compreensão do discurso, os modelos mentais também proporcionam um ‘ponto de partida’ para a produção do discurso: se as pessoas representam as experiências e os eventos ou situações do dia a dia em modelos mentais subjetivos, esses modelos mentais formam ao mesmo tempo a base da construção das representações semânticas dos discursos sobre esses eventos, como é típico das histórias ou dos relatos de notícias do cotidiano.

Contudo, um elo crucial que falta nessa teoria dos modelos mentais do processamento do discurso é dar conta do papel do contexto, porque obviamente nós narramos os mesmos acontecimentos (ou seja, o mesmo modelo mental desses eventos) de modo diferente conforme as diferentes situações ou gêneros comunicativos. Em outras palavras, os usuários da língua, além de falar sobre eventos, também precisam modelar a si próprios e a outros aspectos da situação comunicativa em que estão envolvidos no momento. Desse modo, os modelos de contextos se tornam a interface crucial entre os modelos mentais e os discursos sobre esses eventos.

 

 

 

 

 

Contexto e cognição

Somente através da beleza da manhã é possível penetrar a terra do conhecimento*

JUNG, C. G., 1875-1961. Tipos psicológicos. Tradução L. Orth.  4. ed.  Petrópolis: Vozes, 2011. 614p.

  1. As cartas sobre a educação estética do homem

a) A função superior e inferior

Pelo que pude constatar, em virtude dos limitados meios à minha disposição, Frederico Schiller foi o  primeiro a tentar uma distinção consciente e de grande envergadura entre as atitudes típicas, e a fazer delas uma descrição completa e detalhada. Esta importante tentativa de descrever os dois mecanismos de que estamos tratando e de descobrir como poderiam ser conciliados, encontra-se num estudo publicado, pela primeira vez, em 1795, Über die ästhetische Erziehung des Menschen¹. É uma série de cartas dirigidas por Schiller ao duque de Holstein-Augustenburg.

A profundidade de pensamento, a penetração psicológica da matéria e a ampla visão de uma possível solução psicológica  do conflito me animam a expor longamente, como nunca feito antes, as ideias de Schiller, contidas neste ensaio. A contribuição dada por ele ao nosso ponto de vista não é pequena, conforme se verá ao longo de nossa exposição. ele nos oferece pontos de vista bem elaborados e que, em nossa ciência psicológica, começamos apenas agora a valorizar. Minha tarefa não será fácil, pois pode acontecer que eu dê uma interpretação às ideias de Schiller que não corresponda ao que ele diz. Porei todo o empenho em trazer as próprias palavras do autor para as passagens essenciais, mas não será possível introduzir suas ideias no contexto de minha exposição, sem lhes dar certas interpretações ou explicações. A isto serei forçado pela circunstância que acabo de mencionar, e também não se pode esquecer que o próprio Schiller pertença a um tipo definido, e era compelido, pois, mesmo contra sua vontade, a dar uma descrição segundo seu ponto de vista.

As limitações de nossa inteligência e de nosso conhecimento aparecem com maior intensidade nas descrições psicológicas, pois nelas é quase impossível projetar outra imagem que não aquela cujos traços fundamentais já estão projetados em nossa psique. Várias características de Schiller me levam a concluir que ele pertencia ao tipo introvertido, ao passo que Goethe – excetuando-se a intuição que nele predomina – tende mais para o tipo extrovertido. Podemos facilmente identificar a própria imagem de Schiller em sua descrição idealista. […]

Se eu classificar Schiller, por sua natureza e especialmente por sua oposição característica a Goethe, como tipo introvertido, ainda resta saber a qual subdivisão ele pertence. É difícil responder a esta questão. Sem dúvida, o momento da intuição desempenha grande papel nele, por isso, se o considerarmos apenas como poeta, podemos enquadrá-lo no tipo intuitivo. Mas, nas cartas sobre a educação estética, defrontamo-nos com o pensador Schiller. Não só pelas cartas , mas também das próprias confissões de Schiller podemos deduzir quão forte era nele o elemento reflexivo.  […]

Em primeiro lugar, Schiller aborda a questão da causa e origem da separação das duas funções. Com muita segurança, afirma que o motivo básico é a diferenciação dos indivíduos. Foi a própria cultura que produziu esta ferida na humanidade mais recente². Só esta frase já mostra a compreensão abrangente que Schiller tinha do nosso problema. A desagregação da harmoniosa colaboração das forças espirituais na vida instintiva é como uma ferida sempre aberta e nunca sarada, uma verdadeira ferida de Amfortas, porque a diferenciação de uma função traz consigo inevitavelmente a hipertrofia de uma e o esquecimento e atrofia de outra.

Não desconheço as vantagens – diz Schiller – que a geração de hoje, considerada em sua unidade, na balança da razão, possa ter em relação à melhor do mundo antigo; mas deve iniciar a luta com fileiras cerradas e deixar o todo competir com o todo. Qual dos novos sairia das fileiras para lutar, homem a homem, contra um ateniense pelo prêmio da humanidade? Donde provém esta relação desvantajosa dos indivíduos, apesar da vantagem da espécie?

Schiller atribui a culpa dessa inferioridade dos novos à cultura, isto é, à diferenciação das funções. Mostra, de início, como, na arte e na ciência, o entendimento intuitivo e especulativo se separaram a delimitarem ciosamente entre si os campos de aplicação. E, com a esfera à qual limitamos nossa atividade, impusemo-nos também um senhor que, não raro, acaba oprimindo as demais aptidões. Enquanto a luxuriosa imaginação devasta, em algum lugar, a árdua plantação do entendimento, em outro o espírito de abstração consome o fogo junto ao qual poderia aquecer-se o coração e acender-se a fantasia³.

É mais:  Quando a entidade social faz da função o critério do homem, ao honrar num cidadão somente a memória, num outro apenas o entendimento de tabelas, e num terceiro a habilidade mecânica; quando aqui exige apenas conhecimento, não importa se contra o caráter, e acolá releva a um espírito ordeiro e de comportamento legal a mais crassa obscuridade do intelecto – quando, ao mesmo tempo, exige que as habilidades isoladas sejam exercidas com intensidade igual à extensão que concede ao sujeito – não se pode admirar que as restantes disposições do espírito sejam preteridas para se voltar todos os cuidados para uma única, que traz honra e proveito (4).

Há muita coisa de peso nesses pensamentos de Schiller. É compreensível que, ao tempo dele, devido a um conhecimento imperfeito do mundo grego, só se valorizasse os gregos pela importância das obras que legaram à posteridade e, assim, foram também sobrestimados além da medida, pois a beleza peculiar dos gregos deve sua existência sobretudo ao contraste com o meio do qual se originou. A vantagem do homem grego estava em ser ele menos diferenciado do que o homem moderno, se é que isto representa uma vantagem; pois as desvantagens dessa condição devem ser ao menos igualmente óbvias. A diferenciação das funções não resultou, certamente, da malícia ,mas, como sempre e em toda parte da natureza, surgiu da necessidade. Se um desses admiradores posteriores do céu helênico e da beatitude acádica tivesse visto àquele mundo na condição de hilota ático, teria olhado as belezas da Grécia com olhos bem diferentes. Se é verdade que o indivíduo tinha, mesmo sob as condições primitivas do século V a.C, maior possibilidade de desenvolver amplamente suas qualidades e capacidades, isto se deve unicamente ao fato de que milhares de seus semelhantes foram cerceados e esmagados por circunstâncias tanto mais miseráveis. Algumas personalidades exemplares alcançaram, sem dúvida,alto grau de cultura individual, mas uma cultura coletiva era praticamente desconhecida no mundo antigo.  Esta conquista estava reservada ao cristianismo. Daí provém que os modernos, enquanto massa, não apenas se podem medir com os gregos, mas  facilmente superá-los no que se refere à cultura coletiva. Por outro lado, Schiller tem razão em afirmar   que nossa cultura individual  não acompanhou   nossa cultura coletiva e, certamente, não melhorou nesses cento e vinte anos que já transcorreram desde esta afirmação. Ao contrário, se não tivéssemos avançado ainda mais na  esfera coletiva, em detrimento do desenvolvimento individual, não se justificariam as reações violentas que  se personificaram no espírito de um Stirner ou de Nietzsche. As palavras de Schiller conservam sua validade até hoje.

A Antiguidade, atendendo a uma exigência da classe superior, promoveu o desenvolvimento individual, suprimindo totalmente a grande maioria do povo comum (hilotas e escravos); a época cristã, que se seguiu, alcançou  a condição de uma cultura coletiva, transferindo, enquanto possível, este mesmo processo para o indivíduo (elevou-o ao plano subjetivo, como se poderia dizer). O dogma cristão  proclamava que o valor do indivíduo estava na alma imortal,  por isso não poderia a maioria inferior do povo estar sujeita, na realidade, à liberdade de uma minoria superior, mas a função superior no indivíduo devia ser privilegiada sobre as funções inferiores. Desta forma, houve um deslocamento do valor principal para a única função importante, em detrimento de todas as outras funções. E  assim foi transferida, psicologicamente, para o sujeito, a forma social externa da cultura antiga; foi criada no indivíduo uma condição interna que correspondia, na Antiguidade, a uma condição externa, ou seja, uma função dominadora e privilegiada que se desenvolvia e diferenciava às custas de uma maioria inferiorizada. Por meio desse processo psicológico foi surgindo aos poucos uma cultura coletiva que garantia ao indivíduo os direitos do homem, em maior grau do que na Antiguidade, mas com a desvantagem de basear-se numa cultura subjetiva escrava, isto é, no deslocamento da escravização antiga da maioria para o campo psicológico, onde se privilegia a cultura coletiva, mas se deprecia a cultura individual. A escravização das massas foi a ferida exposta da Antiguidade, mas a escravização das funções inferiores é uma ferida sempre sangrando na psique do  homem moderno. […]

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*SCHILLER, F., 1788. Die Künstler (Os Artistas).

¹ O autor utiliza a edição Cotta,Vol. 18, 1826.

² SCHILLER, F. Über die ästhetische Erziehung des Menschen. Vol. 18. Stuttgart/Tubinga: Cotta, 1826, carta 6.

³ Ibid.

4. Ibid.

Somente através da beleza da manhã é possível penetrar a terra do conhecimento*

Utopia do pudor judiciário: impor penas isentas de dor

FOUCAULT, M., 1926-1984.  Vigiar e punir: nascimento da prisão. Tradução R. Ramalhete. 42. ed. Petrópolis, Rj: Vozes, 2014. 302p.

Suplício: O corpo dos condenados (Continuação).

[…] No fim do século XVIII e começo do XIX, a despeito de algumas grandes fogueiras, a melancólica festa de punição vai-se extinguindo. Nessa transformação, misturaram-se dois processos. Não tiveram nem a mesma cronologia nem as mesmas razões de ser. De um lado, a supressão do espetáculo punitivo. O cerimonial da pena vai sendo obliterado e passa a ser apenas um novo ato de procedimento ou de administração. A confissão pública dos crimes tinha sido abolida na França pela primeira vez em 1791, depois novamente em 1830 após ter sido restabelecida por breve tempo; o pelourinho foi supresso em 1789; a Inglaterra o aboliu em 1837. As obras públicas que a Áustria, a Suíça e algumas províncias americanas como a Pensilvânia obrigavam a fazer em plena rua ou nas estradas – condenados com coleiras de ferro, em vestes multicores, grilhetas nos pés, trocando com o povo desafios, injúrias, zombarias, pancadas, sinais de rancor ou de cumplicidade (5) – são eliminados mais ou menos em toda parte no fim do século XVIII, ou na primeira metade do século XIX. O suplício de exposição do condenado foi mantido na França até 1831, apesar das críticas violentas – “cena repugnante”, dizia Réal (6); ela é finalmente abolida em abril de 1848. Quanto às cadeias que arrastavam os condenados a serviços forçados através de toda a França, até Brest e Toulon, foram substituídas em 1837 por decentes carruagens celulares, pintadas de preto. A punição pouco a pouco deixou de ser uma cena. E tudo o que pudesse implicar de espetáculo desde então terá um cunho negativo; e como as funções da cerimônia penal deixavam pouco a pouco de ser compreendidas, ficou a suspeita de que tal rito que dava um “fecho” ao crime mantinha com ele afinidades espúrias: igualando-o, ou mesmo ultrapassando-o em selvageria, acostumando os espectadores a uma ferocidade de que todos queriam vê-los afastados, mostrando-lhes a frequência dos crimes, fazendo o carrasco se parecer com criminoso, os juízes aos assassinos, invertendo no último momento os papéis, fazendo do supliciado um objeto de piedade e de admiração. Beccaria há muito dissera:

O assassinato que nos é apresentado como um crime horrível, vemo-lo sendo cometido friamente, sem remorsos (7).

A execução pública é vista então como uma fornalha em que se acende a violência.

A punição vai-se tornando, pois, a parte mais velada do processo penal, provocando várias consequências: deixa o campo da percepção quase diária e entra no da consciência abstrata; sua eficácia é atribuída à sua fatalidade, não à sua intensidade visível; a certeza de ser punido é que deve desviar o homem do crime e não mais o abominável teatro; a mecânica exemplar da punição muda as engrenagens. Por essa razão, a justiça não mais assume publicamente a parte de violência que está ligada a seu exercício. O fato de ela matar ou ferir já não é mais glorificação de sua força, mas um elemento intrínseco a ela que ela é obrigada a tolerar e muito lhe custa ter que impor. As caracterizações da infâmia são redistribuídas: no castigo-espetáculo um horror confuso nascia do patíbulo; ele envolvia ao mesmo tempo o carrasco e o condenado: e, se por um lado, sempre estava a ponto de transformar em piedade ou em glória a vergonha infligida ao supliciado, por outro lado, ele fazia redundar geralmente em infâmia a violência legal do executor. Desde então, o escândalo e a luz serão partilhados de outra forma; é a própria condenação que marcará o delinquente com sinal negativo e unívoco: publicidade, portanto, dos debates e da sentença; quanto à execução, ela é como uma vergonha suplementar que a justiça tem vergonha de impor ao condenado; ela guarda distância, tendendo sempre a confiá-la a outros e sob a marca do sigilo. É indecoroso ser passível de punição, mas pouco glorioso punir. Daí esse duplo sistema de proteção que a justiça estabeleceu entre ela e o castigo que ela impõe. A execução da pena vai-se tornando um setor autônomo, em que um mecanismo administrativo desonera a justiça, que se livra desse secreto mal-estar por um enterramento burocrático da pena. É um caso típico na França que a administração das prisões por muito tempo ficou sob a dependência do Ministério do Interior, e a dos trabalhos forçados sob o controle da Marinha e das Colônias.  E acima dessa distribuição dos papéis se realiza a negação teórica: o essencial da pena que nós, juízes, infligimos, não creiais que consista em punir; o essencial é procurar corrigir, reeducar,  “curar”; uma técnica de aperfeiçoamento recalca, na pena, a estrita expiação do mal, e liberta os magistrados do vil ofício de  castigadores. Existe na justiça moderna e entre aqueles que a distribuem uma vergonha de punir, que nem sempre exclui o zelo; ela aumenta constantemente: sobre esta chaga pululam os psicólogos e o pequeno funcionário da ortopedia moral.

O desaparecimento dos suplícios é, pois, o espetáculo que se elimina; mas é também o domínio sobre o corpo que se extingue. Em 1787, dizia Rush:

Só posso esperar que não esteja longe o tempo em que as forças, o pelourinho, o patíbulo, o chicote, a roda, serão considerados, na história dos suplícios, como as marcas da barbárie dos séculos e dos países e como as provas da fraca influência da razão e da religião sobre o espírito humano (8).

Efetivamente, Van Meenen ao abrir, sessenta anos mais tarde, o segundo congresso penitenciário em Bruxelas, lembrava o tempo de sua infância como uma época passada:

Vi o solo semeado de rodas, de forcas, de patíbulos, de pelourinhos; vi esqueletos horrendamente estendidos sobre rodas (9).

A marca a ferro quente foi abolida na Inglaterra (1834) e na França (1832); o grande suplício dos traidores já a Inglaterra não ousava aplicá-lo plenamente em 1820 (Thistlewood não foi esquartejado). Unicamente o chicote ainda permanecia em alguns sistemas penais (Rússia, Inglaterra, Prússia). Mas, de modo geral, as práticas punitivas se tornaram pudicas. Não tocar mais no corpo, ou o mínimo possível, e para atingir nele algo que não é o corpo propriamente. Dir-se-á: a prisão, a reclusão, os trabalhos forçados, a servidão de forçados, a interdição de domicílio, a deportação – que parte tão importante tiveram nos sistemas penais modernos – são penas “físicas”: com exceção da multa, se referem diretamente ao corpo. Mas a relação castigo-corpo não é idêntica ao que ela era nos suplícios. O corpo se encontra aí em posição de instrumento ou de intermediário; qualquer intervenção sobre ele pelo enclausuramento, pelo trabalho obrigatório visa privar o indivíduo de sua liberdade considerada ao mesmo tempo como um direito e como um bem. Segundo essa penalidade, o corpo é colocado num sistema de coação e de privação, de obrigações e de interdições. O sofrimento físico, a dor do corpo não são mais os elementos constitutivos da pena. O castigo passou de uma arte das sensações insuportáveis a uma economia dos direitos suspensos. Se a justiça ainda tiver que manipular e tocar o corpo dos justiçáveis, tal se fará à distância, propriamente, segundo regras rígidas e visando a um objetivo bem mais “elevado”. Por efeito dessa nova retenção, um exército inteiro de técnicos veio substituir o carrasco, anatomista imediato do sofrimento:  os guardas, os médicos, os capelães, os psiquiatras,  os psicólogos, os educadores; por sua simples presença ao lado do condenado, eles cantam à justiça o louvor de que ela precisa: eles lhe garantem que o corpo e a dor não são os objetos últimos de sua ação punitiva. É preciso refletir no seguinte: um médico hoje deve cuidar dos condenados à morte até ao último instante – justapondo-se destarte como chefe do bem-estar, como agente de não sofrimento, aos funcionários que, por sua vez, estão encarregados de eliminar a vida. Ao se aproximar o momento da execução, aplicam-se aos pacientes injeções de tranquilizantes. Utopia do pudor judiciário: tirar a vida evitando de deixar que o condenado sinta o mal, privar de todos os direitos sem fazer sofrer, impor penas isentas de dor. O emprego da psicofarmacologia e de diversos “desligadores” fisiológicos, ainda que provisório, corresponde perfeitamente ao sentido dessa penalidade “incorpórea”.  […]

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5. VAUX, R.”Notices”. In: TEETERS, N. K. They were in prison. 1937, p. 24.

6. Archives parlamentaires. 2ª série, t. LXXII, 01/12/1831.

7. BECCARIA, C. de. Traité des délits et des peines. 1764, p. 101 da edição dada por HÉLIE, F. em 1856 e que será citada aqui.

8. RUSH, B. “Society for promoting political enquiries”. In: TEETERS, N. K. The Cradle of the Penintentiary, 1935, p. 30.

9. Annales de la Charité, vol. II, 1847, p. 529s.

Utopia do pudor judiciário: impor penas isentas de dor

Fantasma dos natais passados …

DICKENS, C., 1812-1870.  Canção de Natal. Tradução H. Jahn.  São Paulo: Companhia das Letrinhas, 1996.  148p.

Quinta estrofe: O fim da história   

Sim! E a coluna era a coluna de sua cama. A cama era a sua, o quarto era o seu, e o melhor de tudo, o mais esplêndido, era que o Tempo diante dele era seu, todo seu para emendar-se.

–  De agora em diante viverei ao mesmo tempo no Passado, no Presente e no Futuro – repetiu Scrooge, saltando da cama. – Os Espíritos dos Três viverão dentro de mim! Ah, Jacob Marley! Que os Céus e a Época Natalina sejam louvados por este milagre! Digo isso de joelhos, velho Jacob; de joelhos!

Estava tão alvoroçado, tão resplandescente de boas intenções, que sua voz embargada não dava conta de manifestar todo o seu empenho. Havia chorado muito em seus embates com o Espírito e ainda trazia o rosto úmido de lágrimas.

-Ninguém arrancou – gritou Scrooge, abraçando a parte lateral do cortinado da cama -, ninguém arrancou, as argolas ainda estão aqui: eu estou aqui: posso dispersar as sombras das coisas que teriam sido. E vou dispersar: Sei que vou!

E enquanto isso, o tempo todo, mantinha as mãos ocupadas com suas roupas: virava-as do avesso, tentava enfiá-las ao contrário, rasgava-as, deixava-as cair, tornava-as cúmplices de todo tipo de extravagâncias.

–  Não sei o que fazer! – exclamava Scrooge, rindo e chorando ao mesmo tempo; e adotando um comportamento de perfeito Laocoonte em relação as suas meias. – Estou me sentindo leve com uma pena, feliz como um anjo, alegre como um menino.  Minha cabeça dá voltas como se eu estivesse bêbado. Feliz Natal para todo mundo!  Próspero Ano Novo para todo mundo!  Ei, vocês aí! Ei!

Aos pinotes, tinha corrido para a sala e lá se encontrava agora, completamente esbaforido.

–  Ali está a panelinha de mingau de aveia! – exclamou, disparando outra vez e correndo atarantado diante da lareira. – Ali está a porta por onde entrou o Fantasma de Jacob Marley! Ali está o canto onde o Fantasma do Natal de Hoje estava sentado! Ali está a janela de onde vi as Almas Perdidas! Está tudo em ordem, foi tudo verdade, todas aquelas coisas aconteceram. Ha, ha, ha!

Francamente, para um homem sem prática havia tantos anos, seu riso era um riso magnífico, um riso realmente notável. O pai de uma longuíssima linhagem de risadas luminosas!

Não sei em que dia do mês estamos! – espantou-se Scrooge. – Não sei quanto tempo passei entre os Espíritos. Não sei coisa nenhuma. Sou como um bebê. Não faz mal. Não estou preocupado com isso. Bem que eu gostaria de ser um bebê. Ei! Olá! Vocês aí!

Seu entusiasmo foi interrompido pelos sinos das igrejas, que começaram a repicar com uma animação sem igual em sua lembrança. Clash, clang, bong, ding, dong, dlem. Dlem, dong, ding; bong, clang, clash! Ah, que glória, que glória!

Scrooge correu para a janela, abriu-a e debruçou-se no parapeito. Nada de neblina, nada de garoa. Um dia esplêndido, sem nuvens, risonho, estimulante, frio; frio, para que o sangue dançasse ao som de suas flautas; um sol dourado; um céu divino; um ar fresco delicioso; sinos felizes. Ah, que glória. Que glória!

Que dia é hoje? – perguntou Scrooge, gritando para um rapaz todo  endomingado na rua embaixo, que aparentemente havia feito uma pausa na caminhada para olhar um pouco ao redor.

–  Como? – replicou o rapaz, profundamente escandalizado.

–  Que dia é hoje, querido jovem? – insistiu Scrooge.

–  Hoje? – repetiu o rapaz. – Ora, HOJE É DIA DE NATAL!

–  Hoje é dia de Natal! – repetiu Scrooge para si mesmo. – Não perdi o Natal! Os Espíritos fizeram tudo numa noite só. Está certo, eles podem fazer o que bem entendem. Claro que podem. Claro que podem. Ei, querido jovem!

– O que o senhor quer? – retrucou o rapaz.

– Por acaso você sabe onde é a loja do comerciante de aves, na esquina da primeira rua depois daquela ali? – apontou Scrooge.

– Imagine se não vou saber! –  respondeu o jovem.

– Que garoto inteligente! – disse Scrooge. – Você é um garoto incrível. Muito bem: será que saberia me dizer se o peru especial que estava pendurado lá foi vendido? Não é do peru especial pequeno que estou falando, mas do grande.

– Qual, aquele do meu tamanho? – indagou o rapaz.

– Que garoto encantador! – disse Scrooge. – É um prazer falar com ele. Isso, meu velho!

– Continua lá pendurado – respondeu o jovem.

– Eu, hein?! – exclamou o jovem.

– É isso mesmo – disse Scrooge -, estou falando sério! Vá até lá e compre o peru e diga ao homem que venha até a minha casa para eu explicar a ele onde deve fazer a entrega. E você também, volte aqui junto com ele para eu lhe dar um shilling. Se você conseguir voltar com o homem em menos de cinco minutos, lhe dou meia coroa!

O garoto saiu feito um raio. Seria preciso ter mão muito firme no gatilho para conseguir disparar um tiro naquela velocidade.

– Vou mandar o peru para Bob Cratchit! – murmurou Scrooge, esfregando as mãos e soltando uma gargalhada. – Ele nunca vai conseguir adivinhar quem mandou. O animal tem o dobro do tamanho do Magrinho Tim. Vai ser a piada do século!

A mão que escreveu o endereço num pedaço de papel não estava lá muito firme, mesmo assim Scrooge deu um jeito de escrever; logo em seguida, desceu para abrir a porta da rua e esperar o comerciante de aves. Enquanto ficava ali parado aguardando, seus olhos deram com a aldrava da porta.

– Vou gostar dessa aldrava pelo resto da vida! – exclamou Scrooge, dando palmadinhas no objeto do seu afeto. – Até agora eu mal tinha olhado para ela. Que expressão sincera em sua fisionomia! Uma aldrava magnífica! Aí vem o peru. Ei! Olá! Como vai o senhor? Feliz Natal! […]

Depois de vestir suas melhores roupas, ele enfim saiu pela porta afora. Àquelas alturas as pessoas já enchiam as ruas, como as vira fazer quando estava na companhia do Fantasma do Natal de Hoje; e, andando com as mãos atrás das costas, examinava-as a todas com um sorriso maravilhado nos lábios.  Para dizer o mínimo, apresentava um aspecto tão irresistivelmente simpático que três ou quatro sujeitos bem-dispostos disseram: “Bom dia, meu senhor! Feliz Natal!”. Scrooge repetiria muitas vezes, depois, que de todos os sons agradáveis que já escutara, nenhum outro fora tão agradável quanto aquele a seus ouvidos. […]

Scrooge foi à igreja, passeou pelas ruas, observou as pessoas correndo em todas as direções, fez festinha na cabeça das crianças, quis saber da vida dos mendigos, espiou as cozinhas das casas, ergueu os olhos para as janelas dos apartamentos, e constatou que todas essas coisas lhe proporcionavam prazer. Se havia algo que ele nunca sonhara, era que uma caminhada – ou qualquer outra coisa – fosse capaz de lhe dar tanta felicidade. À tarde, dirigiu-se à casa do sobrinho.

Passou na frente da porta uma dúzia de vezes até criar coragem de subir a escada e bater; Mas tomou impulso, investiu e bateu.

–  Seu patrão está em casa, minha querida? – perguntou à mocinha que veio abrir a porta. Mocinha simpática! Muito simpática!

– Está, sim, senhor.

– E onde está ele, meu bem? – disse Scrooge.

– Na sala de jantar, senhor, está com a patroa. Faça o favor de vir comigo, que lhe mostro o caminho.

– Não precisa. Ele me conhece – disse Scrooge, já com a mão na maçaneta da porta da sala de jantar. – Pode deixar que eu entro sozinho, meu bem.

Girou delicadamente a maçaneta e espiou pela abertura da porta. O casal estava inspecionando a mesa (arrumada com grande pompa); é que os jovens anfitriões sempre ficam preocupados com esse tipo de coisa e fazem questão de verificar se está tudo como manda o figurino.

– Fred! – disse Scrooge.

Minha nossa, o pulo que deu a sua sobrinha por afinidade! Por um instante, Scrooge se esquecera de como ela havia ficado acomodada no cantinho com os pés na banqueta, do contrário nunca teria falado assim de repente, nunca, de jeito nenhum.

– Não acredito! – exclamou Fred. – Quem está aí?!

– Sou eu. Seu tio Scrooge. Vim jantar com vocês. Posso entrar, Fred?

Se podia entrar! O sobrinho quase arranca o braço dele ao apertar sua mão. Em  cinco minutos, o tio já estava à vontade. Nada no mundo poderia ser mais cordial que aquela casa. A sobrinha   não tinha mudado nem um pouco. Nem Topper quando ele chegou. Nem a irmã gorducha, quando ela chegou. Nem nenhum  dos outros, quando eles chegaram. Festa maravilhosa, brincadeiras maravilhosas, convivência maravilhosa, felicidade ma-ra-vi-lho-sa! […]

 

 

 

 

 

 

 

 

Fantasma dos natais passados …

Psicologia das massas e análise do ego*

MARCUSE, H., 1898-1979. Cultura e sociedade. Tradução Isabel M. Loureiro. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.  175p.

A obsolescência da psicanálise (Continuação)

[…] A mediação entre o eu (Selbst) e o outro dá lugar a uma identificação imediata. Na estrutura da sociedade, o indivíduo torna-se um objeto administrado, consciente e inconsciente, e obtém liberdade e satisfação em seu papel como um tal objeto; na estrutura psíquica o ego se contrai de tal maneira que já não parece capaz de se manter como um eu distinto do id e do superego. A dinâmica pluridimensional, em virtude da qual o indivíduo alcançava e mantinha seu equilíbrio entre a autonomia e a heteronomia, a liberdade e a repressão, o prazer e a dor, deu lugar a uma dinâmica unidimensional, a uma identificação estática do indivíduo com seus semelhantes e com o princípio de realidade administrado. Nessa estrutura unidimensional, o espaço onde os processos psíquicos descritos por Freud podem desenvolver-se já não existe; conseqüentemente, o objeto da terapia psicanalítica já não é o mesmo, e a função social da psicanálise muda em conseqüência das mudanças na estrutura psíquica – a qual, por outro lado, é produzida e reproduzida pela sociedade.

Entretanto, segundo Freud, os processos e conflitos psíquicos fundamentais não são “históricos”, limitados a um período ou a uma estrutura social precisos – eles são universais, “eternos”, fatais. Portanto, esses processos não podem desaparecer e esses conflitos não podem ser resolvidos – eles devem continuar dominando sob outras formas, que correspondem a outros conteúdos e os exprimem. É o que ocorre sob as condições que caracterizam a nova sociedade: no comportamento das massas e na relação delas  com seus novos senhores, que estabelecem o princípio de realidade – isto é, seus líderes. A expressão “líder” (Führer) deve designar não apenas os detentores do poder nos Estados autoritários mas também os das democracias totalitárias, e “totalitário” adquire aqui uma nova determinação, significando não somente a supressão terrorista mas também a supressão pluralista de toda oposição eficaz pela sociedade estabelecida.

Ora, o próprio Freud aplicou a psicanálise a condições nas quais seu modelo clássico de formação do ego, sem algumas restrições essenciais, parecia inválido. No seu ensaio “Psicologia das massas e análise do ego” a psicanálise dá o passo necessário da psicologia individual à psicologia coletiva, à análise do indivíduo como membro da massa do individual como alma coletiva – um passo necessário, pois desde o início a teoria freudiana encontrara o universal no particular, a infelicidade geral na infelicidade  individual. A análise do ego converte-se numa análise política, na qual os indivíduos se ligam até transformarem-se em massas e da qual o ideal do ego, a consciência e responsabilidade foram “extraídos”, arrancados ao domínio da psique individual e encarnados num agente externo. Esse agente, que assim recebe algumas das mais importantes funções do ego (e do superego), é o líder.

Enquanto ideal coletivo dos indivíduos, ele os unifica por meio do duplo vínculo da identificação com ele e dos indivíduos entre si. Os complexos processos psíquicos em jogo na constituição das massas ultrapassam o quadro deste artigo; salientarei somente aqueles pontos que mostram que a obsolescência da análise do ego se estende também à psicologia freudiana dos grupos. Segundo esta, os vínculos que unem os indivíduos para formar as massas são os seguintes:

1. vínculos sentimentais;

2.  são todos impulsos “inibidos quanto à meta” (zielgehemmte);

3.  pertencem a uma forma enfraquecida e empobrecida do ego e representam assim              uma regressão a estágios primitivos de desenvolvimento – em última instância, à                horda primitiva.

Freud extrai esses traços da análise de duas grandes massas “artificiais”, que ele toma como exemplo: a Igreja e o Exército. Podemos nos perguntar se não se poderia ao menos aplicar também alguns resultados dessa análise à constituição de massas ainda maiores nas sociedades industriais avançadas.

O elemento mais geral e ao mesmo tempo fundamental na formação das massas na civilização desenvolvida é, segundo Freud, a singular “regressão a uma atividade primitiva da alma”, que faz retroceder uma civilização avançada a inícios pré-históricos – à horda primitiva. Todos os membros desta eram igualmente reduzidos ao status passivo de filhos do pai todo-poderoso, despótico, que, igualmente perseguidos por ele, tinham dele o mesmo medo; os membros do grupo não podiam desenvolver seu próprio ego nem seu ideal do ego. (Observe-se, para ampliar a discussão, que essa igualdade e essa dependência realizavam-se como resultado da abstinência sexual imposta pelo pai. A identificação de cada um dos membros do grupo com o outro e a sua identificação coletiva com o pai – em outras palavras, os vínculos libidinais, que faziam do grupo uma massa obediente e fortemente coesa, dominada pelo alto -, esses vínculos formavam-se por meio da repressão9. Em virtude da sua origem numa energia erótica “inibida”, a formação de massas produz energia destrutiva que procura e encontra seu alvo fora do grupo.)

Freud especifica os seguintes traços como característicos  da regressão que acompanha a constituição das massas: “Desaparecimento da personalidade individual consciente, orientação dos pensamentos e sentimentos na mesma direção, preponderância da afetividade e da vida psíquica inconsciente, tendência a executar imediatamente as intenções que surgem”. Esses traços regressivos indicam que o indivíduo renunciou ao seu ideal do ego, trocando-o pelo ideal do grupo, tal como encarnado no líder. (6) Ora, parece que os sinais regressivos constatados por  Freud podem ser observados de fato nos domínios avançados da sociedade industrial. A atrofia do ego, sua resistência reduzida aos outros manifestam-se na maneira com que permanentemente fica disponível para soluções que lhe são impostas de fora. A antena em cada casa, o rádio em cada praia, a vitrola em cada bar e restaurante são todos gritos de desespero  para não ficarmos sós, separados dos grandes, condenados ao vazio, ao ódio ou aos sonhos do próprio eu (Selbst). E esses gritos arrastam o vizinho, e mesmo os que ainda têm ou desejariam ter seu próprio ego estão condenados  – um imenso auditório cativo cuja grande maioria se alegra com o encantador de ratos.

Mas a regressão do ego mostra formas ainda mais funestas, sobretudo no enfraquecimento das faculdades “críticas” da psique: a consciência psicológica e a consciência moral (Bewusstsein und Gewissen). (Elas estão ligadas reciprocamente: não há consciência moral sem saber desenvolvido, sem conhecimento do bem e do mal.) A consciência moral e a responsabilidade pessoal degeneram “objetivamente” sob as condições da burocratização total, nas quais é extremamente difícil atribuir-se ainda uma autonomia e onde o funcionamento do aparato determina a autonomia pessoal, pondo-se acima dela. Essa representação corrente contém, entretanto, um forte elemento ideológico: “burocracia” recobre (como o de “administração”) realidades muito diferentes e até mesmo antagônicas: a burocracia da dominação e da exploração é algo muito diferente da “administração das coisas”, que visa ao desenvolvimento e à satisfação planejados das necessidades individuais vitais. Nas sociedades industriais avançadas a administração das coisas encontra-se ainda sob o domínio da burocracia: aqui a transferência inteiramente racional e progressista de funções individuais para o aparato é acompanhada pela transferência irracional da consciência moral e pela repressão da consciência psicológica.

As descobertas das psicanálise contribuem essencialmente para esclarecer a assustadora despreocupação com que os homens se submetem às exigências da administração total, incluindo a preparação total para um fim trágico. Liberado da autoridade do pai fraco, emancipado da família centrada na criança, bem equipado com as representações e os fatos da vida tais como são transmitidos pelos mass media , o filho (a filha num grau menor até agora) entra num mundo feito, com o qual é preciso entender-se. Verifica-se paradoxalmente que a liberdade de que desfrutou na família, de onde a autoridade havia largamente desaparecido, é mais um inconveniente que uma bênção: o ego, tendo-se desenvolvido sem muita luta, aparece como uma entidade bastante fraca, pouco apropriada a tornar-se um eu com os outros e contra eles, a opor uma resistência eficaz às forças que impõem agora o princípio de realidade e que são extremamente diferentes do pai (e da mãe) – mas também muito diferentes dos modelos fornecidos pelos mass media. (No contexto da teoria freudiana o paradoxo desaparece: numa cultura repressiva o enfraquecimento do papel do pai e sua substituição por autoridade externas enfraquecem necessariamente a energia pulsional no ego e, por conseguinte, seus instintos vitais.)  […]

__________________________

*FREUD, S. (Ensaio).

6. S. Freud, “Massenpsychologie und Ich-Analyse”,in Gesammelte Werke, XIII, Londres, 1955, pp. 137, 142.

 

 

 

 

 

 

 

Psicologia das massas e análise do ego*

Cada homem é iluminado pela luz divina e eu a vi brilhar através de cada homem*

FOUCAULT, M., 1926-1984. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Tradução R. Ramalhete.  42. ed.  Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.  302p.

Instituições completas e austeras (Continuação)

[…] 1) primeiro princípio, o isolamento. Isolamento do condenado em relação ao mundo exterior, a tudo o que motivou a infração, às cumplicidades que a facilitaram. Isolamento dos detentos uns em relação aos outros. Não somente a pena deve ser individual, mas também individualizante.  E isso de duas maneiras. Em primeiro lugar, a prisão deve ser concebida de maneira a que ela mesma apague as consequências nefastas que atrai ao reunir num mesmo local condenados muito diversos: abafar os complôs e revoltas que se possam formar, impedir que se formem cumplicidades futuras ou nasçam possibilidades de chantagem (no dia em que os detentos se encontrarem livres), criar obstáculo à imoralidade de tantas “associações misteriosas”. Enfim, que a prisão não forme, a partir dos malfeitores que reúne, uma população homogênea e solidária:

Existe entre nós neste momento uma sociedade organizada de criminosos […] formam uma pequena nação no seio da grande. Quase todos esses homens se conheceram nas prisões ou nelas se encontram. São os membros dessa sociedade que importa hoje dispersar¹².

Além disso, a solidão deve ser um instrumento positivo de reforma. Pela reflexão que suscita, e pelo remorso que não pode deixar de chegar:

Jogado na solidão o condenado reflete. Colocado a sós em presença de seu crime, ele aprende a odiá-lo, e se sua alma ainda não estiver empedernida pelo mal é no isolamento que o remorso virá assaltá-lo¹³.

Pelo fato também de que a solidão realiza uma espécie de autorregulação da pena, e permite uma como que individualização espontânea do castigo: quanto mais o condenado é capaz de refletir, mais ele foi culpado de cometer seu crime; mas mais também o remorso será  vivo, e a solidão dolorosa; em compensação, quando estiver profundamente arrependido, e corrigido sem a menor dissimulação, a solidão não lhe será mais pesada:

Assim, segundo essa admirável disciplina, cada inteligência e cada moralidade levam em si mesmas o princípio e a medida de uma repressão cuja certeza e invariável equidade não poderiam ser alteradas pelo erro e pela falibilidade humanas […]. Não é em verdade como o selo de uma justiça divina e providencial? (14)

Enfim, e talvez principalmente, o isolamento dos condenados garante que se possa exercer sobre eles, com o máximo de intensidade, um poder que não será abalado por nenhuma outra influência; a solidão é a condição primeira da submissão total:

Imagine-se [dizia Charles Lucas, evocando o papel do diretor, do professor, do sacerdote e das “pessoas caridosas” sobre o detento isolado], imagine-se a força da palavra humana que intervém no meio da terrível disciplina do silêncio para falar ao coração, à alma, à pessoa humana (15).

O isolamento assegura o encontro do detento a sós com o poder que se exerce sobre ele.

É nesse ponto que se situa a discussão sobre os dois sistemas americanos de encarceramento, o de Auburn e o de Filadélfia. Na realidade, essa discussão que ocupa tanto lugar (16) só se refere à realização de um isolamento, admitido por todos.

O modelo de Auburn prescreve a cela individual durante a noite, o trabalho e as refeições em comum, mas, sob a regra do silêncio absoluto, os detentos só podendo falar com os guardas, com a permissão destes e em voz baixa. Referência clara tomada ao modelo monástico; referência também tomada à disciplina de oficina. A prisão deve ser um microcosmo de uma sociedade perfeita onde os indivíduos estão isolados em sua existência moral, mas  onde sua reunião se efetua num enquadramento hierárquico estrito, sem relacionamento lateral, só podendo fazer comunicação no sentido vertical. Vantagem do sistema auburniano  segundo seus partidários: é uma repetição da própria sociedade. A coação é assegurada por meios materiais, mas sobretudo por uma regra que se tem que aprender a respeitar e é garantida por uma vigilância e punições. Mais que manter os condenados “a sete chaves como uma fera em sua jaula”, deve-se associá-lo aos outros, “fazê-los participar em comum de exercícios úteis, obrigá-los em comum a bons hábitos, prevenindo o contágio moral por uma vigilância ativa, e mantendo o recolhimento pela regra do silêncio”. Esta regra habitua o detento a “considerar a lei como um preceito sagrado cuja infração acarreta um mal justo e legítimo” (17). Assim  esse jogo do isolamento, da reunião sem comunicação, e da lei garantida por um  controle ininterrupto, deve requalificar o criminoso como indivíduo social: ele o treina para uma “atividade útil e resignada” (18); devolve-lhe “hábitos de sociabilidade” (19).

No isolamento – como em Filadélfia – não se pede a requalificação do criminoso ao exercício de uma lei comum, mas à relação do indivíduo com sua própria consciência e com aquilo que pode iluminá-lo de dentro (20).

Sozinho em sua cela o detento está entregue a si mesmo; no silêncio de suas paixões e do mundo que o cerca, ele desce à sua consciência, interroga-a e sente despertar em si o sentimento moral que nunca perece inteiramente no coração do homem (21).

Não é portanto um respeito exterior pela lei ou apenas o receio da punição que vai agir sobre o detento, mas o próprio trabalho de sua consciência. Antes uma submissão profunda que um treinamento superficial; uma mudança de “moralidade” e não de atitude. Na prisão pensilvaniana, as únicas operações da correção são a consciência e a arquitetura muda contra a qual ela esbarra.  Em Cherry Hill, “os muros são a punição do crime; a cela põe o detento em presença de si mesmo; ele é forçado a ouvir sua consciência”. Donde o fato de que o trabalho é aí antes um consolo que uma obrigação; que os vigias não têm que exercer uma coação que é realizada pela materialidade das coisas, e que sua autoridade, consequentemente, pode ser aceita:

A cada visita, algumas palavras benevolentes saem dessa boca honesta e levam ao coração do detento, junto com o reconhecimento, a esperança e o consolo; ele ama seu guarda; e o ama porque este é suave e tem compaixão. Os muros são terríveis e o homem é bom (22).

Nessa cela fechada, sepulcro provisório, facilmente crescem os mitos da ressurreição. Depois da noite e do silêncio, a vida regenerada. Auburn era a própria vida renovada em seus vigores essenciais. Cherry Hill, a vida aniquilada e recomeçada. O catolicismo recupera rapidamente em seus discursos essa técnica quaker.

Só vejo em vossa cela um horroroso sepulcro, no qual, em lugar dos vermes, os remorsos e o desespero avançam em vossa direção para roer-vos e fazer de vossa existência um inferno antecipado. Mas […] aquilo que para o prisioneiro sem religião não passa de uma tumba, um  ossário repulsivo, torna-se, para o detento sinceramente cristão, o próprio berço da imortalidade bem-aventurada (23).

[…]

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12. TOCQUEVILLE, A. de. “Rapport à la Chambre des Députés”. In: BEAUMONT & TOCQUEVILLE. Système pénitentiaire aus Etats-Unis. 3. ed., 1845, p. 392s.

13. BEAUMONT, E. de & TOCQUEVILLE, A. de. Ibid., p. 109.

14. AYLIES,  S. Du système pénitenciaire. 1837, p. 132s.

15. LUCAS, Ch. De la réforme des prisions. T. 1, 1836, p. 167.

16. A discussão aberta na França por volta de 1830  não estava encerrada em 1850; Charles Lucas, partidário de Auburn, inspirara a portaria de 1839 sobre o regime das Centrais (trabalho em comum e silêncio absoluto). A vaga de revolta que se segue e talvez a agitação geral no país durante os anos 1842-1843 fazem que seja preferido em 1844 o regime pensilvaniano do isolamento absoluto, gabado por Demetz, Blouet, Tocqueville. Mais o 3º congresso penitenciário em 1847 opta contra esse método.

17. MITTERMAIER, K. In: Revue française et étrangère de législation, 1836.

18. GASPARIN, A. E. de. Rapport au ministre de l’ intérieur sur la réforme des prisons.

19. BEAUMONT, E. de & TOCQUEVILLE, A. de. Du systéme  penal aux Etats-Unis. Ed. de 1945, p. 112.

*20. “Cada homem, dizia Fox, é iluminado pela luz divina e eu a vi brilhar através de cada homem”. Nesta linha dos quakers e de Walnut Street é que foram organizadas a partir de 1820 as prisões de Pensilvânia, Pitsburgo, depois Cherry Hill.

21. Journal des économistes, vol. II, 1842.

22. ABEL BLOUET.  Projet des prisons cellulaires. 1843.

23.ABBÉ PETIGNY. Allocution adressée aux prisonniers, à l” occasion de l’ inauguration des bâtiments  cellulaires de la prison de Versailles. Cf. alguns anos mais tarde, em Monte-Cristo, uma versão muito claramente cristológica da ressurreição depois do encarceramento; mas então se trata, não de aprender na prisão a docilidade às leis, mas de adquirir por um saber secreto o poder de fazer justiça além da injustiça dos magistrados.

 

 

 

Cada homem é iluminado pela luz divina e eu a vi brilhar através de cada homem*