Tipologia psicológica¹

JUNG, C. G., 1875-1961.  Tipos psicológicos. Tradução L. M. Orth.  4.ed.  Petrópolis: Vozes, 2011.   614 p.

Caráter é a forma individual estável da pessoa. A forma é de natureza corporal e também psíquica, por isso a caracterologia em geral é uma doutrina das características tanto físicas quanto psíquicas. A enigmática unidade da natureza viva traz consigo que a característica corporal não é simplesmente corporal e a característica psíquica não é simplesmente psíquica, pois a continuidade da natureza não conhece aquelas incompatibilidades e distinções que a razão humana precisa colocar a fim de poder entender. A separação entre corpo e alma é uma operação artificial, uma discriminação que se baseia menos na natureza das coisas do que na peculiaridade da razão que conhece. A intercomunicação das características corporais e psíquicas é tão  íntima que podemos tirar conclusões não só a partir da constituição do corpo sobre a constituição da psique, mas também da particularidade psíquica sobre as correspondentes formas corporais dos fenômenos. É verdade que o último processo é bem mais difícil, não porque o corpo é menos influenciado pela psique do que a psique pelo corpo, mas porque, partindo da psique, temos que concluir do desconhecido para o conhecido, enquanto que no caso inverso temos a vantagem de começar pelo conhecido, ou seja, pelo corpo visível. Apesar de toda a psicologia que acreditamos hoje possuir, a alma continua sendo bem mais obscura do que a superfície visível do corpo.  A psique continua sendo um terreno estranho, pouco explorado, do qual temos notícias apenas por vias indiretas, fornecidas pelas funções da consciência que, por sua vez, estão expostas a possibilidades de erro quase infindas. […]

E aqui se apresenta a dificuldade principal do problema tipológico, isto é, a questão de padrões ou critérios. O critério astrológico era simples: consistia na constelação imperante na hora do nascimento. A questão de saber como o zodíaco e os planetas podiam conter qualidades temperamentais penetra no obscuro nevoeiro da pré-história e fica sem resposta. O critério dos quatro temperamentos psicológicos da Antiguidade era a aparência e o comportamento do indivíduo, exatamente como tipificação psicológica atual. Mas, qual deve ser o critério de uma tipologia psicológica?

Lembremos o exemplo dos indivíduos que deviam passar por sobre um riacho. Como e segundo que pontos de vista devemos classificar suas motivações habituais? Um deles o faz por diversão, outro porque se não o fizesse seria pior, um terceiro não o faz porque tem outra opinião etc. A série de possibilidades parece infinda e sem maiores perspectivas para o problema.

Não sei como os outros procedem em relação a esta tarefa. Só posso dizer como eu tratei o assunto e, quando me objetam que meu modo de resolver o problema é apenas o meu preconceito pessoal, devo concordar. E esta objeção é tão válida que eu não saberia defender-me contra ela. Só me ocorre trazer o exemplo de Colombo que, baseado em suposições subjetivas, em falsa hipótese, e seguindo caminho abandonado pelos navegadores da  época, descobriu a América. Aquilo que contemplamos e o modo como o contemplamos sempre o fazemos com nossos próprios olhos. Por isso a ciência não é feita por um só, mas sempre exige o concurso de muitos. O indivíduo pode dar sua contribuição e, neste sentido, ouso falar do meu modo de ver as coisas.

Minha profissão obrigou-me desde sempre a levar em consideração a peculiaridade dos indivíduos e a especial circunstância de que ao longo dos anos – não sei quantos – ter que tratar de inúmeros casais ligados pelo matrimônio e ter que torná-los plausíveis um ao outro, homem e mulher, enfatizou mais ainda a obrigação e necessidade de estabelecer certas verdades médias. Quantas vezes, poe exemplo, tive de dizer: “Sua mulher é de constituição tão ativa que não se pode esperar que sua vida toda se resuma a cuidar do lar”. Isto já é uma tipificação, uma espécie de verdade estatística. Existem naturezas ativas e passivas. Mas esta verdade rudimentar não me satisfazia. Minha próxima tentativa foi dizer que havia algo como naturezas reflexivas e irrefletidas, pois percebera que muitas naturezas aparentemente passivas não eram, na verdade, tão passivas, mas sim premeditativas. Essas examinam, primeiro, a situação e só depois agem; e por assim procederem habitualmente, desperdiça oportunidades onde é preciso agir imediatamente, sem premeditação, dando a impressão de serem passivas. Os irrefletivos sempre me pareciam pessoas que saltavam para dentro de uma situação com os dois pés, para só então pensarem que talvez tivessem entrado num brejo. Podíamos, portanto, designá-los irrefletidos, o que parecia mais adequado do que ativos, pois a premeditação do outro é,  às vezes, uma atividade muito importante e um agir muito responsável em vista do fogo de palha impensado de uma simples ocupação. Mas de pronto descobri que a lentidão de um nem sempre era premeditação e o agir rápido de outro também não era irreflexão. A hesitação do primeiro repousa muitas vezes numa timidez habitual ou, ao menos, num retroceder instintivo diante de tarefa grande demais; a atividade imediata do outro se torna possível devido a uma autoconfiança quase desmedida em relação ao objeto. Esta observação fez com que eu formulasse a tipificação da seguinte maneira: existe toda uma classe de pessoas que, no momento de reagir a uma situação dada, primeiro se retrai, dizendo “não” em voz baixa, e só depois chega a reagir; e outra classe que reage imediatamente diante da mesma situação, aparentando plena confiança de que seu procedimento está correto. A primeira classe seria caracterizada por uma certa relação negativa com o objeto e a segunda, por uma relação positiva.

Como se pode ver, a primeira classe corresponde à atitude introvertida e a segunda à atitude extrovertida. […]

Introversão e extroversão como tipos de atitudes significam um preconceito que condiciona todo o processo psíquico, porque estabelecem o modo habitual de reação e, portanto, determinam não apenas o modo de agir, mas também o modo de ser da experiência subjetiva e o modo de ser da compensação pelo inconsciente.

A determinação do hábito de reagir tem que acertar no alvo, pois o hábito é de certa forma uma central de comutação a partir da qual é regulado, por outro lado, o agir externo, e, por outro, é configurada na experiência específica. Certo modo de agir traz resultados correspondentes e a compreensão subjetiva dos resultados faz surgir experiências que, por sua vez, voltam a influenciar o agir e, dessa forma, traçam o destino individual, segundo o ditado: “Cada qual é o autor de seu destino”. […]

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¹ Conferência pronunciada no encontro de médicos de doentes mentais, Zurique, 1928, Cf. Seelen probleme der Gegenwart, p.101s.

 

 

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Tipologia psicológica¹

Capacidade de raciocínio X Sustentação de um argumento

ARISTÓTELES, 384 – 322 a.C. Órganon:  Da interpretação, Analíticos anteriores, Analíticos posteriores, Tópicos, Refutações sofísticas. Tradução E. Bini.  2ª ed. Bauru, SP: EDIPRO, 2010.  608p.

Tópicos (Livro I)

O propósito deste tratado é descobrir um método que nos capacite a raciocinar, a partir de opiniões de aceitação geral, acerca de qualquer problema que se apresente diante de nós e nos habilite, na sustentação de um argumento, a nos esquivar da enunciação de qualquer coisa que o contrarie. Devemos, portanto, começar por dizer o que é o silogismo e quais tipos dele existem, para possibilitar que o silogismo dialético (464) seja apreendido, já que é a busca deste que empreendemos no presente tratado.

O silogismo é um discurso argumentativo no qual, uma vez formuladas certas coisas, alguma coisa distinta destas coisas resulta necessariamente através delas pura e simplesmente. (465).  O silogismo é demonstração quando procede de premissas verdadeiras e primárias ou tais que tenhamos extraído o nosso conhecimento original delas através de premissas primárias e verdadeiras. O silogismo dialético é aquele no qual se raciocina a partir de opiniões de aceitação geral. São verdadeiras e primárias as coisas que geram convicção através de si mesmas e não através de qualquer outra coisa, pois, no que toca aos primeiros princípios da ciência , faz-se desnecessário propor qualquer questão adicional quanto ao por que, devendo cada princípio por si mesmo gerar convicção. Opiniões de aceitação geral, por outro lado, são aquelas que se baseiam no que pensam todos, a maioria ou os sábios, isto é, a totalidade dos sábios, isto é, a totalidade dos sábios, ou a maioria deles, ou os mais renomados e ilustres entre eles. O silogismo é polêmico, (466) se fundado em opiniões que, embora pareçam receber aceitação geral, de fato não recebem, ou se meramente parece ser fundar em opiniões que são, ou parecem ser, geralmente aceitas, pois nem toda opinião que parece receber aceitação geral realmente a recebe. Em nenhuma das chamadas opiniões de aceitação geral é a aparência falaciosa totalmente manifesta como acontece com os princípios dos argumentos polêmicos, pois usualmente a natureza de falsidade nestes é imediatamente visível, mesmo para aqueles que possuem modesta capacidade de entendimento. Portanto, dos silogismos polêmicos supracitados, os primeiros deveriam realmente ser classificados como silogismos, mas os outros deveriam ser classificados não simplesmente como silogismos, mas como silogismos polêmicos, porque, embora pareçam produzir raciocínio dedutivo, de fato não o produzem.

Ademais, além de todos os silogismos citados anteriormente, há falsos silogismos baseados em premissas características de determinadas ciências, encontrados na geometria e nas ciências afins. Dizemo-lo porque esta modalidade parece diferir dos silogismos já mencionados. Com efeito, aquele que constrói  uma falsa figura não raciocina nem a partir de premissas verdadeiras e primárias nem a partir de opiniões de aceitação geral, não sendo enquadrado em nossa definição, pois não toma como suas premissas quer opiniões de aceitação universal, quer as que se fiam na maioria ou nos sábios (a saber, em todos os sábios, na sua maioria ou nos mais ilustres entre eles), mas seu processo de raciocínio é baseado em suposições peculiares a uma ciência, mas não verdadeiras. Há, de sua parte, no caso, raciocínio falso tanto na descrição incorreta dos semicírculo quanto no traçado impróprio das linhas.

Que o dito anteriormente valha como uma descrição sumária dos diferentes tipos de silogismo. Em geral, no que tange a todos os já mencionados e a serem mencionados daqui para a frente, que a distinção indicada nos baste, uma vez que não nos propusemos a oferecer a definição exata de qualquer um deles, mas desejamos meramente descrevê-los a grosso modo. considerando tal o suficiente do ponto de vista do método que estabelecemos, para estarmos aptos a reconhecer cada um deles de uma forma ou outra.

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464. (dialektikos süllogismos), a dedução dialética enquanto distinta da dedução científica.

465. Tendo em vista agora a dialética, Aristóteles didaticamente repete, mediante outras palavras, a definição de silogismo, bem como repetirá outras definições, inclusive a definição de definição. Ver Analíticos Anteriores, Livro I, Capítulo I, 24b20. Dizemos repete e repetirá meramente em função da ordem que se convencionou adotar para os tratados que compões o Órganon, pois é quase certo que Aristóteles escreveu o tratado Tópicos antes dos Analíticos anteriores.

466. (eristikos), adjetivo derivado do substantivo (eris), luta, querela, discórdia, rivalidade.

 

 

Capacidade de raciocínio X Sustentação de um argumento

Não viver à pressa

GRACIÁN, B., 1601-1658. A arte da prudência. Tradução I. Benedetti.  2. ed.  São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.  172p.

 

Saber repartir as coisas é saber gozá-las. A muitos sobra vida e falta felicidade; malbaratam alegrias, pois não as gozam, e depois querem voltar atrás, quando se acham tão à frente. São postilhões da vida, pois, além do comum correr do tempo, acrescentam o atropelamento e seu gênio. Querem devorar num dia o que só podem digerir em toda uma vida. Vivem adiantados nas felicidades, comem os anos por vir e, como andam com tanta pressa, depressa acabam com tudo. Até no querer saber há de haver modo de não saber as coisas mal sabidas. São mais os dias que as ditas. No gozar, devagar; no obrar, à pressa. Os feitos estão bem quando feitos; as alegrias mal estão se acabadas.

 

Saber ou escutar quem sabe.  Sem entendimento não se pode viver, seja ele próprio ou de empréstimo;  porém muito ignoram que não sabem, e outros pensam que sabem, não sabendo. Nescidade é doença sem remédio, pois, como os ignorantes não se sabem tal, não procuram o que lhes falta. Alguns seriam sábios se não acreditassem que o são.  Por isso, embora raros, os oráculos de cordura vivem ociosos, porque ninguém os consulta. A grandeza não é diminuída nem a capacidade contradita pelo aconselhar-se; antes, com o aconselhar-se fica mais creditada. Debata na razão para que não o combata a desdita.

 

Viver segundo a ocasião.  Governar, discorrer, tudo há de ser apropositado. Queira-se quando se pode, que a sazão e o tempo não esperam ninguém. Não se dê a generalidades no viver, se não em favor da virtude, nem imponha leis precisas ao querer, pois amanhã será preciso beber a água hoje desprezada. Há os paradoxalmente impertinente, para quem todas as circunstâncias do acerto devem ajustar-se à sua mania, e não o contrário. Mas o sábio sabe que o norte da prudência consiste em portar-se segundo a ocasião.

 

Ter conceito claro de si e de suas coisas.  Mais ainda quem começa a viver. Todos têm altos conceitos d si, e mais os que menos são. Cada um sonha um grande destino, imaginando-se um prodígio. A esperança empenha-se com desatino, e depois a experiência nada cumpre. Serve de tormento à imaginação vã o desengano da realidade verdadeira. Que a cordura corrija semelhantes desacertos, e, ainda que possa desejar o melhor, há de sempre esperar o pior para acolher com equanimidade o que vier. É destreza mirar um pouco acima para acertar o tiro,  mas não tanto que seja desatino. Ao se começar a ter cargos, é necessária essa reforma de conceitos, pois a presunção costuma desatinar sem a experiência. não há medicina mais universal para todas as nescidades que o siso. Que cada um conheça a esfera de sua atividade e de seu estado, e poderá regular o conceito com a realidade.

Conhecer as eminências de seu século. Não são muitas: uma Fênix em todo o mundo, um só Gran Capitán, um perfeito Orador, um Sábio em todo um século, um rei eminente em muitos. A mediocridade é ordinária em número e apreço; as eminências são raras em tudo, porque requerem perfeição consumada, e, quanto mais elevada a categoria, mais difícil o extremo. Muitos tomaram de César e Alexandre o apelido de Magno, porém em vão, pois sem os feitos a palavra não passa de um pouco de ar: poucos Sênecas houve, e um só Apeles a fama celebrou.

 

Saber conter-se.  É mister fazer grande caso dos acasos. São os ímpetos de paixão resvaladouros da cordura,  e aí está o risco de perder-se. Avança-se mais em um instante de furor ou de prazer que em muitas horas de indiferença. Corre-se às vezes um breve instante para correr-se depois toda a vida. A astuta intenção alheia traça essas tentações da prudência para descobrir o fundo ou a alma; vale-se de semelhantes arrancadores de segredos, que costumam sorver até a última gota os maiores caudais. Que a contra-ardileza seja o conter-se, e ainda mais nos apressuramentos.  É mister muita reflexão para que uma paixão não desboque, e cordo é quem lhe fica a cavalo. Vai com tento quem concebe o perigo. Parece tão leve a palavra a quem a lança quão pesada parece a quem a recebe e pondera.

Não viver à pressa

Todo o ensino e toda a instrução intelectual procedem de conhecimento pré-existente […]

ARISTÓTELES, 384-322 a.C.  Órganon: Categorias, Da interpretação, Analíticos anteriores, Analíticos posteriores, Tópicos, refutações sofísticas. Tradução E. Bini.  2. ed.  Bauru, SP: EDIPRO, 2010. 608p.

Analíticos posteriores (Livro I)

[…] Isso é evidenciado se examinarmos todos os distintos ramos do saber, porque tanto as ciências matemáticas quanto qualquer outra arte são adquiridas dessa forma. O mesmo ocorre com os argumentos lógicos, (296) quer silogísticos quer indutivos. Ambos constituem o ensino a partir de fatos já conhecidos, os primeiros (297) levantando hipóteses como se fossem concedidas por uma audiência inteligente; os segundos (298) demonstrando o universal a partir da natureza auto-evidente do particular. Os meios pelos quais os argumentos retóricos convencem são precisamente os mesmos, uma vez que utilizam paradigmas, que são um tipo de raciocínio indutivo, ou entimemas, que são um tipo de raciocínio silogístico.

o conhecimento prévio é necessário em dois sentidos. Por vezes é necessário para supor antecipadamente o fato, por vezes é preciso que compreendamos o significado do termo e, por vezes é necessário para supor antecipadamente o fato, por é preciso que compreendamos o significado do termo e, por vezes, ambos são necessários. Por exemplo, é preciso que admitamos como fato que ou a afirmação ou a negação de toda proposição é verdadeira e necessário que saibamos o que significa o termo triângulo. E no que diz respeito à unidade, temos tanto que saber o que significa quanto supor que existe. Isso ocorre porque tais verdades não são todas igualmente aparentes para nós. O reconhecimento de um fato pode, às vezes, acarretar tanto conhecimento prévio obtido no ato de reconhecimento, ou seja, conhecimento dos particulares que realmente se subordinam ao universal, que nos é conhecido. Já sabíamos que todo triângulo tem a soma de seus ângulos internos igual igual a dois ângulos retos; mas que esta figura inscrita no semi-círculo é um triângulo só reconhecemos à medida que formos levados a relacionar o particular com o universal (pois algumas coisas, a saber, as que são particulares extremos não predicáveis de nenhuma outra coisa como sujeito, são aprendidas somente dessa forma, isto é, o [termo] menor não é reconhecido por meio do termo médio). Antes que o processo de relação seja completado ou a conclusão tirada, seria presumível que disséssemos que num sentido o fato é compreendido e num outro não é, pois como poderíamos saber, no sentido pleno, que a figura contém ângulos iguais à soma de dois ângulos retos, se não soubéssemos em sentido pleno se existe? Fica claro que apreendemos o fato não absolutamente, mas naquele sentido qualificado em que apreendemos um princípio geral.

A menos que façamos a distinção, estaremos do embaraço alcançado no Mênon, (299) no qual ou alguém nada pode aprender ou alguém somente pode aprender o que já é conhecido. Decerto não devemos aceitar a explicação com a ajuda da qual certos pensadores tentam resolver esta dificuldade. Supondo que a alguém seja perguntado “Sabes ou não sabes que toda dupla é par?”, quando ele responde afirmativamente, seus opositores produzem alguma dupla cuja existência ele desconhecia e que, portanto, não sabia ser par.  Esses pensadores resolvem o problema dizendo que não sabem que toda dupla é par, mas somente que as coisas que sabem ser duplas são pares. Mas o que sabem ser par é o que demonstraram ser tal, isto é, aquilo que tomaram como o sujeito de sua premissa, e isso não é tudo que sabem ser um triângulo ou um número, mas todo número e todo triângulo, sem qualificação. Nunca se supõe uma premissa tal como “o número que sabes ser número” ou “a figura retilínea que sabes ser figura retilínea”. A predicação se aplica a todo caso do sujeito. Mas presumo que não haja porque alguém não devesse num sentido conhecer num certo sentido particular, ou seja, no sentido e maneira exatos nos quais aprende.

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296. Aristóteles diz [em grego] (logous), mas se refere mais exatamente aos argumentos dialéticos.

297. Ou seja, os raciocínios silogísticos, a dedução.

298. Ou seja, os raciocínios indutivos, a indução.

299. Platão, Mênon, 80d-e.

 

 

 

Todo o ensino e toda a instrução intelectual procedem de conhecimento pré-existente […]

É sinal de estreiteza quando o espírito se satisfaz: ou sinal de lassidão.

 

MONTAIGNE, M de. 1533-1592. Os ensaios: uma seleção.  Tradução R. d’Aguiar.  São Paulo: Companhia das Letras, 2010.  610p.

Sobre a experiência. Não há desejo mais natural que o desejo de conhecimento. Ensaiamos todos os meios que podem levar-nos a ele. Quando nos falta a razão, empregamos a experiência,

Per varios usus artem experientia fecit:

Exemplo monstrante viam,*

[A experiência tem por diversas práticas produzido as artes, como o exemplo mostrando o caminho,]

que é um meio muito mais fraco e menos digno. Mas a verdade é coisa tão grande que não devemos desprezar  nenhum intermediário que nos leve a ela. A razão tem tantas formas que não sabemos a qual recorrer. Não menos tem a experiência. A consequência que queremos tirar da comparação entre os acontecimentos é pouca segura, visto que eles são sempre dessemelhantes. Nessa comparação que fazemos sobre as coisas, nenhuma qualidade é tão universal quanto sua diversidade e variedade. […]  A semelhança não torna as coisas tão “unas” assim como a diferença as torna “outras”. A natureza obrigou-se a nada fazer “outro”  que não fosse dessemelhante. Por isso, não me agrada a opinião daquele** que pensava frear, pela profusão das leis, a autoridade dos juízes, dando-lhes mastigados os pedaços de que precisariam. Ele não percebia que há tanta liberdade e amplitude na interpretação das leis como em sua elaboração. E os que pensam enfraquecer nossos debates e sustá-los ao nos lembrarem as palavras expressas da Bíblia não podem ser sérios. Tanto mais que o campo que se oferece a nosso espírito para examinar o pensamento de outro não é menos vasto do que o campo em que ele expõe o seu. E seria como se houvesse menos animosidade e virulência em glosar do que em inventar.

Vemos como aquele homem se enganava. Pois temos na França mais leis do que todo o resto do mundo junto; e mais do que seria necessário para regular todos os mundos de Epicuro: Ut olim flagitiis, sic nunc legibus laboramus.*** [Como outrora sofríamos com os crimes, hoje estamos esmagados pelas leis.] E no entanto deixamos tão bem nossos juízes opinarem e decidirem que nunca houve liberdade tão poderosa e tão licenciosa. O que ganharam nossos legisladores em distinguir 100 mil categorias e fatos específicos e a eles ligar 100 mil leis? Esse número não tem a menor relação com a diversidade infinita das ações humanas. A multiplicação de nossas invenções não conseguirá igualar a diversidade dos exemplos. Somem-se a isso mais cem vezes e ainda assim não será possível que entre os acontecimentos futuros haja só um que, em todo esse grande número de milhares de acontecimentos selecionados e repertoriados, possa se juntar e emparelhar com outro tão exatamente que não reste entre eles a menor particularidade e diferença e que não requeira um julgamento específico.  Há pouca relação entre nossas ações, que estão em perpétua mutação, e as leis fixas e imóveis. As leis mais desejáveis são as mais raras, mais simples e gerais. […] Semeando as questões e retalhando-as, fazem frutificar e pulular no mundo as incertezas e as querelas, assim como a terra torna-se mais fértil à medida que é esmigalhada e profundamente revolvida. Difficultatem facit doctrina** [É a ciência que cria a dificuldade.] Duvidávamos de Ulpiano, e duvidamos também de Bartolo e Baldo.*** Seria preciso apagar os traços dessa inumerável diversidade de opiniões, e não apossar-se dela e encher a cabeça da posteridade. Não sei o que dizer disso, mas sentimos por experiência que tantas interpretações dissipam a verdade e a quebram. Aristóteles escreveu para ser compreendido; se não conseguiu, menos conseguirá um menos hábil, e um terceiro, menos que quem traduz o próprio pensamento. Abrimos nossa matéria e, macerando-a, a expandimos. De um assunto fazemos mil: e multiplicando e subdividindo caímos na infinidade dos átomos de Epicuro. Nunca dois homens julgaram da mesma maneira a mesma coisa. E é impossível ver duas opiniões exatamente iguais: não só em diversos homens mas no mesmo homem, em horas diferentes. Normalmente encontro do que duvidar naquilo que o comentário não se dignou tocar. Tropeço mais facilmente em terreno plano, como certos cavalos que conheço, que mais amiúde pisam em falso em caminho uniforme. Quem negaria que as glosas aumentam as dúvidas e a ignorância, já que não se vê nenhum livro, seja humano seja divino, em que os homens trabalharam e cujas dificuldades tenham sido vencidas por suas interpretações? O centésimo comentarista transmite àquele que o sucede um livro mais espinhoso e mais escarpado do que o primeiro que o comentou. Quando concordaremos entre nós que tal livro tem suficientes comentários e que de agora em diante não há mais nada a dizer? Isso pode ser mais bem visto nas chicanas. Confere-se força de lei a infinitos doutores, a infinitos decretos e a outras tantas interpretações. Porventura vemos progresso e avanço com respeito à serenidade? Precisamos de menos advogados e juízes do que quando essa massa de direito ainda estava em sua primeira infância? Ao contrário, obscurecemos e enterramos a inteligência. Não mais a discernimos senão à mercê de tantas cercas e barreiras. Os homens desconhecem a doença natural de seu espírito. Este apenas bisbilhota e procura; e vai incessantemente rodopiando, construindo, como nossos bichos-da-seda, e emaranhando-se em seu trabalho: nele se sufoca. Mus in pice.* [Um camundongo no piche.] Pensa notar de longe não sei que aparência de clareza e de verdade imaginárias: mas enquanto corre para lá, tantas dificuldades lhe atravessam o caminho, tantos obstáculos e novas pesquisas, que elas o extraviam e inebriam. […] É sinal de estreiteza quando o espírito se satisfaz: ou sinal de lassidão. Nenhum espírito poderoso se detém em si mesmo. Sempre se empenha em ir mais longe e vai além de suas forças. Seus impulsos vão além de seus feitos. Se não avança e não se apressa, e não se força e não se choca e se revira, só está vivo pela metade. Suas buscas não têm término nem forma. Seu alimento é o espanto, a caça, a incerteza. Como declarava Apolo, falando sempre conosco de forma ambígua, obscura e oblíqua: não nos saciando mas nos divertindo e nos ocupando. É um movimento irregular, perpétuo, sem modelo e sem objetivo. Suas invenções excitam-se, seguem-se e engendram-se uma à outra.

 

Ainsi voit l’on, en ruisseau coulant,

Sans fin l’une eau apres l’autre roulant,

Et tout de rang, d’un eternel conduict,

L’une suit l’autre, et l’une l’autre fuyt.

Par cette-cy celle-là est poussée,

Et cette-cy par l’autre est devancée:

Tousjours l’eau va dans l’eau, et tousjours est-ce

Mesme ruisseau, et toujours eau diverse.

 

[Assim se vê num riacho correndo, sem fim uma água após outra rolando, e perpetuamente num eterno conduto; uma segue a outra, e uma da outra foge. Por esta a outra é impelida, e esta pela outra é precedida: a água sempre indo na água, e sempre é o mesmo riacho, e sempre água diferente.]*

 

Há mais trabalho em interpretar as interpretações do que em interpretar as coisas: e mais livros sobre os livros do que sobre outro assunto: não fazemos mais do que glosar uns aos outros. Tudo fervilha de comentários, mas de autores há grande escassez. O principal e mais famoso saber de nossos séculos não é saber compreender os sábios? Não é essa a finalidade comum e última de todos os estudos? Nossas opiniões enxertam-se umas nas outras. A primeira serve de caule à segunda: a segundo à terceira. Assim escalamos, degrau a degrau. E resulta que quem sobe mais alto costuma ter mais honra do que mérito. Pois só subiu um bocadinho, sobre os ombros do penúltimo. Quão frequentemente, e talvez tolamente, estendi meu livro até que ele falasse de si? Tolamente, quanto mais não fosse por esta razão: eu devia me lembrar do que digo dos outros que fazem o mesmo; de que essas olhadelas tão frequentes para suas obras provam que o coração estremece de amor por elas; e de que mesmo as asperezas e o menosprezo com que as castigam são apenas mimos e repreensões de uma solicitude maternal, seguindo Aristóteles, para quem tanto prezar como desprezar costumam nascer do mesmo ar de arrogância. Pois não sei se todos aceitarão minha desculpa de que devo ter nisso mais liberdade que os outros porque, justamente, escrevo sobre mim, e sobre meus escritos e sobre minhas outras ações, já que meu tema se revira sobre si mesmo. Vi na Alemanha que Lutero deixou tantas, e mesmo mais discórdias e desacordos sobre suas opiniões do que ele mesmo levantou a respeito das Sagradas Escrituras. Nossa contestação é verbal. Pergunto o que são  natureza, prazer, círculo, fideicomisso. A questão é sobre palavras e é paga na mesma moeda. Uma pedra é um corpo: mas se pressionássemos: “E corpo, o que é?”,  ” Uma substância”, “E substância, o que é?”, e assim por diante, encurralaríamos o interlocutor até o fim de seu dicionário. Troca-se uma palavra por outra e quase sempre por uma mais desconhecida ainda. Sei melhor o que é “homem” do que sei o que é “animal”, ou “mortal”, ou “racional”. Para esclarecer uma dúvida, dão-me três: é a cabeça da Hidra. Sócrates perguntou a Mênon o que era a virtude: “Há”, disse Mênon, “virtude de homem e de mulher, de magistrado e de cidadão particular, de criança e de velho”. “Ah, isso é muito bom, exclamou Sócrates, “estávamos em busca de uma virtude e nos trazes um enxame.” Fazemos  uma pergunta e nos devolvem uma colmeia. […] Engenhosa mescla da natureza. Se nossas faces não fossem semelhantes, não se saberia discernir o homem do animal: se não fossem dessemelhantes, não se saberia discernir um homem de outro. Todas as coisas se ligam por certa semelhança. Todo exemplo é falho. E a relação que se estabelece a partir da experiência é sempre falha e imperfeita. […]

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*Manílio, I, LIX.

*Os Perroset eram fabricantes de cartas estabelecidos em Avignon desde o século XV. Na época, o verso das cartas era branco e sem nenhuma decoração.

**Triboniano, jurista e ministro do imperador bizantino Justiniano, cujo Código previa tantos casos que reduzia o papel dos juízes a apenas aplicá-lo.

***Tácito, Anais, III, xxv, I.

**Quintiliano, Instituição oratória, X, iii, 16.

****Ulpiano (170-228), famoso jurisconsulto romano. Bartolo de Sassoferrato (1313-1357) e seu aluno Pietro Baldo (1327-1400) foram influentes glosadores de textos jurídicos no século XIV.

*Velho adágio publicado na edição francesa dos Adágios, de Erasmo, 1571.

*La Boétie, “Á Marguerite de Carle sur la traduction des Plantes de Bradamant”, 109-6.

 

 

 

É sinal de estreiteza quando o espírito se satisfaz: ou sinal de lassidão.

Juntos e amontoados

BAUMAN, Z.,    – 2017. Estranhos à nossa porta. Tradução C. A. Medeiros.  Rio de Janeiro: Zahar, 2017.  119p.

Os primeiros seres humanos, de modo muito semelhante aos hominídeos dos quais se separaram, eram caçadores e coletores, e por esse motivo devem ter sido nômades; seus descendentes, que constituíram a espécie do Homo sapiens, continuaram nômades durante a maior parte de sua história posterior. O historiador William McNeill avalia que “é seguro presumir que, quando nossos ancestrais se tornaram plenamente humanos, eles já eram migratórios, movimentando-se na caça de grandes animais”.¹  Entre 2 milhões e 1,5 milhão de anos atrás, o gênero chamado Homo separou-se do já bípede Australopithecus, 2 milhões de anos mais velho.

Julga-se que as primeiras migrações de nossos ancestrais estavam confinadas ao continente africano – enquanto se acredita que 100 mil anos atrás seus descendentes, que os paleontologistas consideram já pertencentes à espécie do Homo sapiens, saíram da África para o Oriente Médio e de lá se dispersaram por todos os continentes do planeta. Eles eram fundamentalmente migrantes – a migração, como resume Kevin Kenny, “era parte de seu modo de vida”. A história da espécie humana já conheceu um bom número de mudanças e deslocamentos de grandes partes ou da totalidade das sociedades. E, segundo a compilação feita por Kevin Kenny das mais recentes descobertas acadêmicas, “Recentes estudos genéticos demonstram que as mitocôndrias encontradas nas células humanas descendem de uma única mulher, retrospectivamente batizada de “Eva Africana”, que viveu na África em algum momento, entre 200 mil e 150 mil anos atrás.²  Mesmo que haja – como sugerem reportagens que chegam das linhas de frente do atual processo registrado como a “crise migratória” (um codinome, permitam-me insinuar, tão vago quanto ameaçador e intencionalmente alarmante) – algo muito novo na origem dos atuais deslocamentos em massa de pessoas, pouco há de inédito no padrão de respostas sociais/políticas a eles, como estou tentando mostrar.

Mudanças importantes, seminais, no modo de coexistência humanos, contudo, têm ocorrido – entre muitas, a densidade, que cresce regularmente (embora com muita rapidez), da ocupação humana do planeta: uma densidade ao mesmo tempo física e espiritual.

“Na maior parte de nossa história”, como assinalou Kwame Anthony Appiah, nossos ancestrais “veriam, num dia típico, apenas pessoas [que eles] haviam conhecido” durante a maior parte de suas vidas.³ Todas as suas roupas e ferramentas, na verdade, todos os artefatos que viam e usavam em seu cotidiano, eram feitos por essas pessoas. Esse é o mundo que nos moldou, o mundo em que se formou nossa natureza.” Não foi há tanto tempo atrás – na verdade, um minúsculo recorte da história humana – que conseguimos de algum forma “viver lado a lado em sociedades nas quais a maioria dos que falavam nossa língua, compartilhavam nossas leis e produziam a comida posta sobre nossas mesas eram pessoas que jamais chegaríamos a conhecer”.  “Só nos dois últimos séculos chegamos a um ponto em que cada um de nós pode realisticamente imaginar fazer contato com qualquer outro” dos demais 7 bilhões de seres humanos que habitam o planeta Terra. Podemos compartilhar com eles algumas das coisas que fizemos e valorizamos, mas que eles desejam e ambicionam; e podemos impor-lhes coisas que produzimos, mas que eles detestam ou abominam; e o que se aplica a nós também se aplica a eles.

Appiah conclui: o desafio é “pegar mentes e corações formados durante longos milênios numa vida em hostes locais e equipá-los com ideias e instituições que lhes permitirão conviver como a tribo global em que nos transformamos”. Este é de fato um grande desafio, real e verdadeiramente um desafio do tipo vida e morte (vida conjunta, morte conjunta). Aproximando-se (ou talvez) já tendo atingido) uma bifurcação no caminho de nossos possíveis futuros, um deles levando ao bem-estar cooperativo, o outro à extinção coletiva, somos ainda capazes de elevar nossas consciências, intenções e ações à globalidade já existente – e cuja reversão é altamente improvável – de nossa independência em termos de espécie, uma condição que torna a escolha entre sobrevivência e extinção dependente de nossa capacidade de “viver lado a lado”, mutuamente a paz, em solidariedade e cooperação, entre estranhos que podem ou não sustentar opiniões e preferências semelhantes às nossas.

Não existem no planeta terras desocupadas, livres para a colonização. além disso, não há terras que possam ser imaginadas e tratadas como tal por aspirantes a colonizadores ostentando um poder grande o suficiente para forçá-las a se abrir aos recém-chegados que expurgam sua população nativa. Kant previu o advento de tal situação muito antes de isso acontecer. E meditou sobre os “imperativos” que precisariam ser observados quando isso ocorresse – como deve ocorrer. Como conviver – viver em paz – num planeta congestionado, que está atingindo o limite de sua capacidade de ocupação?

Em Terceiro artigo definitivo para a paz perpétua (explicitado como “O direito cosmopolita deve limitar-se às condições da hospitalidade universal”), Kant insiste em afirmar que o assunto sobre o qual está escrevendo, e aquilo que escreve a esse respeito,

não é uma questão de filantropia, mas de direito. Hospitalidade significa o direito que tem um estrangeiro de não ser tratado de forma hostil pelo fato de estar em território alheio. O outro pode desprezar o estrangeiro, se isso pode realizar-se sem a ruína deste, mas, enquanto o estrangeiro se comportar amistosamente em seu posto, o outro não pode combatê-lo com hostilidade. Não há nenhum direito de hóspede em que se possa basear essa exigência (para isso seria necessário um contrato especialmente generoso, pelo qual se limitasse o tempo de “hospedagem”), mas um direito de visita, direito a apresentar-se à sociedade, que têm todos os homens em virtude do direito da propriedade em comum da superfície da Terra, sobre a qual o ser humano não pode se estender até o infinito, por ser uma superfície esférica, tendo que se tolerar uns juntos aos outros, e não tendo ninguém originariamente mais direito que o outro de estar em um determinado lugar da Terra. (40).

 

Observe-se a cautela de Kant – e a circunspecção com que articula as condições da “paz perpétua”, em âmbito mundial, num planeta sobre o qual seus habitantes “não podem se estender até o infinito” e, portanto, tendo “de se tolerar uns juntos aos outros”. O que Kant reivindica não é o cancelamento da distinção entre terras (países, Estados soberanos e autônomos, vistos e tratados por suas respectivas populações como suas pátrias de direito), mas “um direito de se associar” (comunicar, entrar numa interação amigável e por fim tentar estabelecer laços de amizade mutuamente benéficos, que se presuma serem enriquecedores do ponto de vista espiritual). O que Kant reivindica é a substituição da hostilidade pela hospitalidade.  No princípio da hospitalidade mútua Kant divisou a possibilidade e a perspectiva da paz universal, pondo fim à longa história de guerras fratricidas que castigaram o continente europeu.

Mais de duzentos anos e diversas guerras sangrentas depois, ainda estamos procrastinando a concretização do apelo de Kant à hospitalidade. […]

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¹ Apud Stéphane Dufoix, Diasporas, University of California Press, 2015, p. 35. “Ser sedentário”, conclui Dufoix, “é um desenvolvimento recente na história humana” (p. 36).

² Kevin Kenny, Diaspora, Oxford University Press, 2013, p. 17.

3 Ver Kwame Anthony Appiah, Cosmopolitanism: Ethics in a World of Strangers, Penguin, 2007.

4. Disponível em: http://www.mtholyoke.edu/acad/intrel/kant/kantl.htm.

 

Juntos e amontoados

A tristeza é também uma onda

RILKE, R. M., Cartas a um jovem poeta. Tradução F. Jorge. Rio de Janeiro: HEMUS, 1967.  71p.

Borgeby Gard, Fladie, Suécia                                                                                                  12 de agôsto de 1904

Venho outra vez palestrar consigo, meu prezado senhor Kappus, se bem que pouco tenha a dizer-lhe que possa ajudá-lo ou ser-lhe útil. Diz-me que múltiplas e enormes tristezas cruzaram o seu caminho e que a passagem dessas tristezas bastou para o abalar. Peço-lhe que se interrogue e que veja se essas enormes tristezas não atravessaram as regiões mais profundas de si mesmo, se não modificaram muitas coisas em si, se nenhum ponto do seu ser se transformou ao contacto. Apenas são cruéis e perigosas as tristezas que passeamos na multidão para que esta lhes dê remédio e que se parecem a essas moléstia, negligentemente tratadas, que somem num momento para retornar em seguida, mais perigosas do que nunca. Estas acumulam-se em nós e também são vida, mas vida que não foi vivida, vida desprezada e como que abandonada, mas que nem por isso deixas às vezes de ser fatal. Se a nossa vista alcançasse para além dos limites do conhecimento, e mesmo para além do halo das nossas intuições, talvez acolhêssemos as nossas melancolias com mais confiança ainda do que as nossas alegrias. As tristezas são auroras novas em que o desconhecido nos visita. A alma, assustada e temerosa, cala-se, tudo se afasta, faz-se uma grande tranqüilidade e o incognoscível surge em silêncio.

Quase todas as nossas tristezas, são acredito, estados de tensão que experimentamos como que tolhidos, assustados por já não nos sentirmos viver. Estamos sós com esse desconhecido que penetrou em nós, privados de tudo aquilo a que estávamos habituados a confiar-nos. Pelejamos como se lutássemos com uma corrente de que tivéssemos de suportar as ondas. A tristeza é também uma onda. O desconhecido uniu-se a nós, penetrou no âmago do nosso coração, e já nem sequer está no nosso coração, pois se mesclou com o nosso sangue e assim ignoramos o que se passou. Seria fácil fazerem-nos crer que não se passou nada. E, todavia, eis-nos transformados como uma casa pela presença de um hóspede. Não podemos dizer quem chegou, não o saberemos talvez nunca, mas muitos sinais nos indicam que foi o futuro que, deste modo, entrou em nós para se transformar na nossa substância, muito antes de tomar forma. Eis porque a solidão e o recolhimento são tão importantes quando estamos melancólicos. Êsse instante aparentemente ôco, esse instante de tensão que o futuro nos penetra, está infinitamente mais perto da existência do que aquêle outro instante em que se nos impõe do exterior, em pleno tumulto e como que por acaso. Quanto mais silenciosos, pacientes e recolhidos formos nas nossas melancolias, de forma mais eficaz o desconhecido penetrará em nós. O desconhecido é o nosso bem. Metamorfoseia-se na carne do nosso destino, ligando-nos a este quando foge de nós para se realizar, isto é, para se projetar no cosmo. E é preciso que assim seja. É preciso – e é nisto que consiste a nossa evolução – que jamais encontremos nada que não nos pertença há já muito tempo. […]
Como poderia a nossa condição não ser difícil?
E para regressarmos à solidão, torna-se-nos cada vez mais patente que a solidão não é uma coisa que possamos aceitar ou recusar ao nosso talante. Podemos, é indubitável, enganar-nos a nós próprios e fazer de conta que não é assim. Porém, nada mais. Como seria preferível entender que somos sempre solidão e partir desta verdade! Sem dúvida, esta certeza provocar-nos-ia vertigens porque todos os horizontes familiares sumiriam, tudo nos pareceria longínquo e o longínquo recuaria até o infinito. Só um homem que, bruscamente e sem ser avisado, fosse transportado do seu quarto para o alto de uma montanha, sentiria qualquer coisa de parecido: uma insegurança sem par, um abalo tal, oriundo de uma força desconhecida, que seria quase capaz de o destruir. […] Devemos aceitar a nossa vida tão completamente quanto possível. Tudo, mesmo o inconcebível, deve tornar-se possível. No fundo, a única valentia que nos é pedida é a de fazermos face ao singular, ao maravilhoso, ao extraordinário que se nos deparar. Custou bem caro à vida que os homens, neste ponto, tivessem sido débeis.
Essa vida que chamam imaginária, esse cosmo que pretendem sobrenatural, a morte, todas estas coisas nos são, no fundo, consubstanciais, mas foram expelidas da vida por uma defesa diária, a tal ponto que os sentidos que teriam podido apreendê-las se atrofiaram. O medo do sobrenatural não empobreceu somente a existência do indivíduo, mas ainda as relações de homem para homem, subtraindo-as ao rio das possibilidades infinitas para as colocar a salvo, em qualquer ponto seguro das margens. Não é só devido à indolência que estas relações são indizìvelmente monótonas e se reproduzem sem alternativas: é também porque o homem teme as novidades que não sente à altura de enfrentar e cujo epílogo é imprevisível. Só aquêle que espera tudo, que não exclui nada, nem mesmo o mistério viverá, como fazendo parte da vida, as relações de homem para homem e, indo ao mesmo tempo até à fronteira da sua própria vida. Se concebermos a vida do indivíduo como um quarto maior ou menor, torna-se evidente que quase todos aprendem apenas a conhecer um canto dêsse quarto, aquêle local em frente da janela, aquêle raio em que se movem e onde encontram uma relativa segurança. Quanto mais humana não é, porém, aquela insegurança, cheia de perigos, que leva os prisioneiros, nas histórias de Poe, a explorar com os dedos as suas horríveis masmorras, a tudo conhecer dos terrores indescritíveis que resultam dessa curiosidade! Mas nós não somos prisioneiros. Nenhum alçapão, nenhuma armadilha nos ameaça. Não temos nada a recear. Fomos colocados na vida por ser a vida o elemento que mais nos convém. Uma adaptação milenária faz com que nos pareçamos com o cosmo, a tal ponto que, se permanecêssemos calmos, mal nos distinguiríamos, por um feliz mimetismo, do que nos cerca. Não temos nenhuma razão de desconfiar do universo, porque este não nos é contrário. Se existem terrores, esses terrores são os nossos; se há abismos, são os nossos abismos; se há perigos, devemos esforçar-nos por amá-los. Se construirmos a nossa existência sobre o lema de que devemos sempre dar preferência ao mais difícil, tudo o que ainda hoje nos parece singular se tornará familiar e fiel. Como olvidar esses mitos antigos que se encontram no início da história de todos os povos, os mitos dos dragões que, no momento supremo, se transformam em princesas? Todos os dragões da nossa existência são talvez princesas que esperam ver-nos, um dia, belos e audazes. Todas as coisas assustadoras não são mais, talvez, do que coisas indefesas que esperam que as socorramos [..]
Não se observe muito. Evite tirar conclusões sumárias do que se passa em si. Abandone-se e não raciocine. Caso contrário, seria levado a censurar o seu próprio passado (sob o ângulo moral, entende-se…), porque o passado é em parte responsável do que hoje lhe acontece. […]
Se me permite, dir-lhe-ei ainda uma coisa: não acredite que sob estas palavras simples e tranquilas, que às vezes o acalmam, aquêle que se esforça por reconforta-lo viva sem empecilhos. A sua existência não está isenta de penas e tristezas que o deixam muito aquém delas. Mas, se assim não fosse, nunca teria podido achar estas palavras o seu

Rainer Maria Rilke

A tristeza é também uma onda

[….] que sei, basta para mim, não ambiciono ser o mesmo Arcésilas e para o incomodado Sólon*

KANT, I., 1724-1804. Crítica da razão pura. Tradução L. Anselmi e F. Lubisco.  São Paulo: Ícone, 2007.  541p.

4. História da razão pura

Este título é colocado aqui unicamente para designar uma lacuna que permanece no sistema e que deverá ser preenchido mais tarde. Eu me contento em apreciar, de um ponto de vista transcendental, isto é, do ponto de vista da natureza da razão pura, o conjunto de trabalhos que ela realizou até aqui, o que sem dúvida revela estruturas, mas estruturas em ruína.

É bastante notável o fato de que, na infância da Filosofia, embora isso não pudesse naturalmente ocorrer de outra maneira, os homens começaram por onde gostaríamos mais de terminar, quero dizer, estudando o conhecimento de Deus e a esperança, ou até mesmo a natureza de outro mundo. Por mais grosseiras que fossem as idéias religiosas introduzidas pelas antigas práticas que subsistiam ainda do estado bárbaro dos povos, isso não impediu que os mais esclarecidos se dedicassem a livres pesquisas sobre esse assunto, e compreendeu-se facilmente que não pode haver maneira mais sólida e mais segura de satisfazer o poder invisível que governa o mundo, e de assim ser feliz, pelo menos em outro mundo, do que a boa conduta. A teologia e a moral eram então os dois motivos, ou melhor, os dois pontos convergentes de todas as especulações racionais para os quais os homens vieram a se dedicar incessantemente. No entanto, foi propriamente a primeira que passo a passo comprometeu a razão puramente especulativa em uma ocupação que, conseqüentemente, tornou-se célebre com o nome de Metafísica.

Eu não quero aqui tentar especificar os períodos da história em que ocorreram tal ou qual revolução na Metafísica, mas somente apresentar, num rápido esboço, as idéias que causaram as principais revoluções. E aqui me deparo com um triplo objetivo em vista do qual ocorreram as mudanças mais importantes no decurso das conseqüentes controvérsias.

1º. Com respeito ao objeto de todos os nossos conhecimentos racionais, alguns filósofos foram simplesmente sensualistas e outros, simplesmente intelectualistas. EPICURO pode ser chamado do mais célebre filósofo da sensibilidade; PLATÃO, da Filosofia intelectual. Mas essa distinção das Escolas, por mais sutil que seja, já havia começado desde os tempos mais remotos e foi mantida desde então em uma continuidade ininterrupta. Os primeiros desses filósofos afirmavam que não há realidade senão nos únicos objetos dos sentidos e que todo o resto é imaginação; os segundos, ao contrário, diziam que nos sentidos só existe ilusão e que somente o entendimento sabe o que é verdadeiro. No entanto, os primeiros não negavam a realidade aos conceitos do entendimento, mas essa realidade para eles era unicamente lógica, enquanto ela era mística para os outros. Os primeiros aceitavam conceitos intelectuais, mas somente admitiam objetos sensíveis. Os segundos queriam que os verdadeiros objetos fossem simplesmente inteligíveis e admitiam uma intuição do entendimento produzindo-se sem a ajuda de algum sentido, mas segundo eles, somente de maneira confusa.

2º. Com respeito à origem dos conhecimentos racionais puros, a questão era saber se eles derivavam da experiência ou se tinham sua fonte na razão independentemente da experiência. ARISTÓTELES pode ser considerado chefe dos empiristas e PLATÃO o dos noologistas. LOCKE, que nos tempos modernos seguiu os passos de ARISTÓTELES, e LEIBNIZ, os de PLATÃO (apesar do considerável desacordo com seu sistema místico), não puderam levar esse conflito a qualquer conclusão definitiva. EPICURO foi pelo menos muito mais consistente em seu sistema sensualista (pois ele jamais ultrapassou os limites da experiência)  do que ARISTÓTELES e LOCKE (principalmente esse último) que, depois de ter derivado todos os conceitos e todos os princípios da experiência, estende tanto a sua prática que chega a afirmar ser possível demonstrar a existência de Deus e a imortalidade da alma (embora esses dois objetos estejam totalmente fora dos limites da experiência possível) tão evidentemente quanto qualquer teorema matemático.

3º. Com respeito ao método. – Para ter o direito de dar o nome de método a alguma coisa, é preciso que essa coisa seja um procedimento elaborado de acordo com princípios. Ora, é possível dividir o método que prevalece atualmente nesse campo da investigação em método natural e método científico. O naturalista da razão pura adota por princípio que, pela razão comum (que ele denomina de sã razão), e sem ciência, ele é capaz de, com respeito a essas mais sublimes questões que formam o problema da Metafísica, realizar muito mais do que é possível através da especulação. Portanto, ele afirma que podemos mais seguramente determinar o tamanho e a distância da Lua pela simples medida da observação do que pelos recursos matemáticos. Trata-se aqui apenas de uma misologia colocada como princípio, e o mais absurdo é que o abandono de todos os meios técnicos são recomendados como o verdadeiro método para ampliar os conhecimentos. Pois para aqueles que se mostram naturalistas por falta de melhores percepções nada podemos imputar com justiça. Eles seguem a razão comum, sem se vangloriar de sua ignorância como de um método que deve encerrar o segredo de derivar a verdade do profundo poço de DEMÓCRITO. O… Quod sapio, satis est mihi; non ego curo esse quod Arcelilas aerumnosique Solones* (PERSIUS) é o seu lema; com isso, podem viver contentes e dignos de aprovação sem se preocupar com a ciência e sem interferir em suas obras.

Quanto àqueles que observam um método científico, têm a opção de escolher entre o método dogmático e o método cético, mas nos dois casos sempre têm a obrigação de proceder sistematicamente. Ao mencionar aqui o célebre WOLF para os primeiros e DAVID HUME para os segundos, posso deixar de mencionar outros filósofos para o meu presente objetivo.  Somente o caminho da crítica continua aberto. Se o leitor teve a cortesia e a paciência de percorrê-lo até aqui em minha companhia, neste momento será capaz de julgar se gostaria de ajudar atransformá-lo em um caminho real, o que tantos séculos não conseguiram realizar e que não poderia ser conseguido antes do final deste século, ou seja, tentar conseguir para a razão humana a satisfação completa com relação a este assunto que sempre atiçou a sua curiosidade e que ela, tão ansiosamente buscou em vão

[….] que sei, basta para mim, não ambiciono ser o mesmo Arcésilas e para o incomodado Sólon*