A imagem é também uma metáfora

ARISTÓTELES, 384-322 a.C. Retórica. Tradução Edson Bini.  São Paulo: EDIPRO, 2013.  272p.

Havendo entre elas tão só uma ligeira diferença. Quando o poeta, referindo-se a Aquiles, diz:

Arremeteu-se como um leão... (200)

… está empregando uma imagem. Mas quando diz:

Esse leão arremeteu-se…

… está utilizando uma metáfora. Como ambos [isto é, Aquiles e o leão] são corajosos, efetuando uma transposição, o poeta qualificou Aquiles de leão. A imagem pode mostrar-se útil também na prosa, desde que seja utilizada apenas esporadicamente, visto que a rigor a imagem é própria da poesia. Deve ser usada como o são as metáforas, já que imagem e metáfora, salvo pela leve diferença que indicamos, são idênticas.

Mencionamos a seguir alguns exemplos de imagens. Andrócio disse, aludindo a Idreu, que ele era como pequenos cães soltos das correntes: Lançam-se sobre os passantes e os mordem. Assim, Idreu, uma vez livre de seus vínculos, exibe sua índole selvagem. Teodamas comparava Arquidamos a um Euxeno que não conhecesse geometria – tratando-se aqui de uma imagem proporcional que insinua ser Euxeno um Arquidamos que conhecesse geometria. Na República (201) de Platão, este diz que os assaltantes de cadáveres assemelham-se a pequenos cães que mordem as pedras contra eles atiradas, inofensivos com os que as atiram. Refere-se também ao povo que é semelhante a um piloto de navio, que é vigoroso, mas um pouco surdo. Há também a imagem sobre os versos de poetas, na qual ele os compara a pessoas às quais falta beleza, mas que possuem o viço da juventude. Não se reconhecem mais uns e outras: essas pessoas, se houverem ultrapassado o frescor da juventude; os versos, se quando despojados de sua medida descambaram em prosa. Péricles comparava os samianos a criancinhas que a despeito de conseguirem seu mingau, não param de chorar; os beócios às azinheiras, uma vez que estas árvores se quebram devido aos seus próprios galhos, como faziam os boécios enredados nas guerras civis arruinando-se entre si. Demóstenes declarava, referindo-se ao povo, que era como homens no mar acometidos de enjoo; Demócrates comparava os oradores políticos a amas que depois de mastigarem um bocado, roçam os lábios das crianças com a saliva. Antístenes comparava o magro Cefisodoto ao incenso que ao se consumir exalava um cheiro agradável. Todas essas ideias podem ser expressas por nós quer como imagens, quer como metáforas; as que se saem bem como metáforas, evidentemente se sairão bem igualmente como imagens, enquanto as imagens, omitida a explicação, surgirão como metáforas. Todavia, é invariavelmente necessário que a metáfora seja retirada da analogia que diga respeito a ambos os termos e que se origine de objetos pertencentes a um mesmo gênero – exemplo, se dizemos que a taça é o escudo de Dionísio, devemos dizer com igual propriedade que o escudo é a taça de Ares.

Tais são os elementos que compõem o discurso. (202)

______________________

200. Homero, Ilíada, Canto XX. 164.

201. 469e, 488b e 601b.

202. Com esta frase, Kassel inicia o capítulo 5.

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A imagem é também uma metáfora

Da liberdade de pensamento e discussão

MILL, J. S., 1806-1873. Sobre a liberdade. Tradução D. Bottman.  Porto Alegre: L&PM, 2016.  176p.

 

Já se foi o tempo, espera-se, quando era preciso defender a “liberdade de imprensa” como uma das garantias contra um governo corrupto ou tirânico. Podemos supor que, hoje em dia, não seja jamais necessário qualquer argumento combatendo que um legislativo ou um executivo, cujo interesse não se identifica com o povo, possa lhes prescrever opiniões e determinar quais doutrinas ou quais argumentos o povo está autorizado a ouvir. Ademais, outros escritores anteriores defenderam com tanta frequência e tanto sucesso esse aspecto da questão que, aqui, não há necessidade de insistir especialmente sobre ele. Embora a lei da Inglaterra referente à imprensa continue até hoje a ser tão servil quanto era no tempo dos Tudors, é pequeno o risco de ser efetivamente aplicada contra o debate político, exceto durante algum pânico temporário, quando o medo da insurreição leva ministros e juízes a se afastarem do devido decoro*; e, falando em termos gerais, em países constitucionais não há por que temer que o governo deva ou não responder totalmente ao povo, tente controlar a expressão da opinião com muita frequência, exceto quando o faz como veículo da intolerância geral do público. Suponhamos, portanto, que o governo esteja em completa harmonia com o povo e nunca pense em exercer qualquer poder de coerção, a menos que esteja em consonância com o que ele julga ser a voz do povo. Mas eu nego ao povo o direito de exercer tal coerção, seja diretamente ou por meio do seu governo. O poder em si é ilegítimo. O melhor governo não tem mais título a ele do que o pior dos governos. O exercício desse poder, quando se dá em consonância com a opinião pública, é tão ou mais nocivo do que quando se dá em oposição a ela. Se todos os seres humanos, à exceção de um, fossem da mesma opinião e apenas  uma pessoa fosse de opinião contrária, a humanidade não estaria mais justificada em silenciar essa pessoa do que estaria ela, se detivesse o poder, em silenciar toda a humanidade. Se uma pessoa fosse uma propriedade pessoal sem qualquer valor a não ser para seu proprietário; se o impedimento para usufruir dela fosse simplesmente uma lesão na esfera privada, haveria alguma diferença se a lesão fosse causada apenas a algumas ou, pelo contrário, a muitas pessoas. Mas o mal específico de silenciar a expressão de uma opinião é que assim se está roubando a humanidade inteira, tanto a geração atual quanto a posteridade, e os que divergem da opinião, ainda mais do que os que a apoiam. Se a opinião é correta, a humanidade se vê privada da oportunidade de trocar o erro pela verdade; se é errada, perde algo que quase chega a ser um grande um grande benefício: a percepção mais clara e a impressão mais vívida da verdade, geradas por sua colisão com o erro.

É necessário examinar em separado essas duas hipóteses, a cada uma das quais corresponde um ramo distinto da argumentação. Nunca podemos ter certeza se a opinião que tentamos sufocar é uma opinião falsa; e, mesmo que tivéssemos certeza, ainda assim seria um mal sufocá-la.

Primeiro: a opinião que se tenta suprimir pela autoridade pode ser verdadeira. É claro que os que desejam suprimi-la negam sua verdade; mas eles não são infalíveis. Não têm qualquer autoridade para decidir a questão por toda a humanidade e privar todas as outras pessoas dos meios de julgar. Recusarem ouvidos a uma opinião por terem certeza de que ela é falsa é supor que a certeza deles é igual a uma certeza absoluta. Todo silenciamento de um debate é uma pretensão de infalibilidade. Pode-se admitir esse argumento condenatório simples, mas que nem por ser simples é pior. […]

Passemos agora à segunda parte da argumentação e, deixando de lado a suposição de que alguma das opiniões vigentes possa ser falsa, presumamos que são verdadeiras e examinemos o mérito da maneira como costumam ser adotadas, quando sua verdade não passa por um escrutínio livre e aberto. Por menos que uma pessoa de opinião forte se disponha a aceitar a possibilidade de que sua opinião talvez seja falsa, há de movê-la a consideração de que, por verdadeira que sua opinião possa ser, se não for discutida integralmente, com constância e destemor, ela será sustentada não como uma verdade viva e sim como um dogma morto. […]

Se o intelecto e o julgamento da humanidade devem ser cultivados, coisa que os protestantes pelo menos não negam, sobre quais coisas a pessoa pode exercer essas suas faculdades de maneira mais apropriada, a não ser nas que lhe interessam a ponto de considerar necessário ter opiniões sobre elas? Se o cultivo do entendimento consiste em alguma coisa em particular, certamente é em conhecer os fundamentos das próprias opiniões. Seja qual for a crença das pessoas em assuntos em que é de primeira importância crer corretamente, elas teriam de conseguir defendê-la pelo menos contra as objeções mais comuns.

_____________________________

*Essas palavras mal acabaram de ser postas no papel quando, como que para contradizê-las enfaticamente, ocorreram os Processos do Governo contra aImprensa de 1858. Mas essa interferência pouco judiciosa na liberdade de discussão pública não me levou a alterar no texto uma única palavra que fosse, e em nada enfraqueceu minha convicção de que, salvo em momentos de pânico, a época das penas e dos castigos por causa de debates políticos já se acabou em nosso país. Pois, em primeiro lugar, os processos não tiveram continuidade; em segundo,nunca foram processos de perseguição política propriamente ditos. O delito objeto de denúncia nãoera o de criticar instituições, nem os atos ou as pessoas dos dirigentes, mas o de pôr em circulação o sue se considerava uma doutrina imoral, a legalidade do Tiranicídio.

Se os argumentos deste capítulo têm alguma validade, é a de que deve existir a mais completa liberdade de professar e discutir, como questão de convicção ética, qualquer doutrina, por imoral que se possa considerá-la. Portanto, seria descabido e deslocado que se possa considerá-la. […]

Da liberdade de pensamento e discussão

Até um dia, quem sabe!

REIS, Antônio, 1944-. A vaga. Eunápolis, 2012.

Vem uma vaga,

Lança-se na praia,

Rouba-lhe um beijo

E efemeramente se desfaz.

Restando somente

Do insano ato,

A branca espuma

Que ficou para trás.

Ignorada pela praia fria

Volta a vaga ao oceano imenso,

Lenta, triste, desiludida,

Agora, só como um refluxo.

E novamente

Soma-se ao mar,

Que na procela

Encapela-se,

E outra vez

Com seu vigor,

A vaga regenera,

E esta, um outro beijo,

Em ato insano arrisca,

Deixando como testemunho

A espuma branca,

A pálida marca

Da sua esperança.

Até um dia, quem sabe,

Até um dia…

 

 

 

Até um dia, quem sabe!

Meios comuns de persuasão

ARISTÓTELES, 384-322 a. C. Retórica. Tradução Edson Bini. São Paulo: EDIPRO, 2013. 272p.

Tendo já recorrido sobre os meios de persuasão peculiares a cada gênero de oratória, cabe-nos agora tratar dos argumentos comuns a todos os tipos de oratória. Há dois tipos de meios comuns de persuasão: o exemplo e o entimema (128), já que a máxima constitui uma parte do entimema. Comecemos pelo exemplo, uma uma vez que assemelha-se à indução, sendo esta um princípio do raciocínio. Temos duas espécies de exemplos: a primeira consiste em relatar fatos reais passados, ao passo que a segunda consiste na própria invenção do orador. Desta última distinguem-se, de um lado, a parábola e, de outro, as fábulas de Esopo ou as fábulas líbias. Eis, aproximadamente, o que é um exemplo [da primeira espécie]: suponhamos que alguém (o orador) diga que é necessário fazer os preparativos [para a guerra] contra o grande rei (129), de modo a não permitir que ele conquiste o Egito. Dirá que Dario teve o cuidado de não atravessar [o mar Egeu] enquanto não tomou o Egito, mas o tendo feito, atravessou; que Xerxes, por sua vez, não nos atacou enquanto não tomou o Egito e que o tendo tomado, realizou sua travessia. Portanto, se o atual rei conquistar o Egito,  também ele fará sua travessia e, assim, é necessário não permitir que o conquiste.

A parábola é o tipo de argumento usado por Sócrates. Suponhamos que alguém (o orador) diga que não convém que os magistrados sejam eleitos por sorteio, que seria como selecionar atletas por sorteio, em lugar de escolhê-los em função de sua capacidade para participar dos jogos, ou como empregar o sorteio para eleger entre os os marinheiros o timoneiro, como se devêssemos recorrer ao indicado pelo sorteio e não o homem que sabe como pilotar.

Quanto à fábula, apresentamos dois exemplos. O primeiro é a fábula de Estesicoro acerca de Falaris; o segundo é a fábula de Esopo, na qual ele defende um líder popular. O povo de Himera elegera Falaris como general, detentor de poderes políticos absolutos, e dispunha-se a dar-lhe um guarda-costas. Estesicoro, entre outras coisas ditas com certa prolixidade, narrou a esse povo a fábula do cavalo que tinha somente para si um prado. Logo surgiu um cervo que se pôs a estragar seu prado. O cavalo, querendo vingar-se do cervo indagou ao homem se podia ajudá-lo em sua vingança. O homem disse que sim, mas desde que o cavalo permitisse que ele lhe colocasse rédeas e o montasse com seus dardos à mão. O cavalo concordou e o homem o montou, mas ao invés de realizar sua vingança, o cavalo tornou-se doravante escravo do homem. “Vosso caso”, disse Estesicoro, “é idêntico. Tomai cuidado, ao desejardes vingar-vos de vossos inimigos, para não sofrer a mesma sorte do cavalo. Ao fazerdes de Falaris um ditador militar, já permitistes que rédeas vos fossem colocadas.  Se a ele derdes um guarda-costas e se deixardes que ele monte sobre vossas costas, vos tornareis imediatamente os escravos de Falaris”.

Esopo, defendendo diante dos cidadãos de Samos um líder popular acusado de um crime capital que podia levá-lo à morte, contou-lhes a seguinte fábula: “Uma raposa que atravessava um rio foi tragada por um profundo buraco nas rochas; não podendo daí sair, por longo tempo sofreu horrores devido a um enxame de carrapatos que passaram a atormentá-la. Um ouriço, que perambulava por ali, avistou a raposa, teve pena dela e perguntou-lhe: ‘Queres que eu te livre de teus carrapatos?’ Mas a raposa respondeu que não, e quando o ouriço indagou a razão de sua recusa, respondeu-lhe: ‘É que estes carrapatos já estão empanturrados do meu sangue e já não me sugam tanto, mas, se os removeres, surgirão outros esfaimados que sugarão o pouco de sangue que me resta’.  Da mesma maneira, cidadãos de Samos, este homem doravante não vos prejudicará mais, pois está rico. Mas se o condenardes à morte, virão outros cuja pobreza os estimulará a vos roubar e a dissipar o dinheiro público.”.

As fábulas são adequadas aos discursos dirigidos às assembleias populares, tendo inclusive a vantagem de que, se é difícil encontrar paralelos com fatos passados reais, é muito fácil inventar fábulas. Para concebê-las, tal como as parábolas, basta perceber as analogias, capacidade desenvolvida pelo exercício intelectual e que facilita a filosofia. Mas embora seja mais fácil suprir argumentos através da invenção de fábulas, do ponto de vista do orador deliberativo (político), é mais importante supri-los mediante a citação de fatos que realmente sucederam, pois muito amiúde o futuro assemelha-se ao passado.

Conclui-se, portanto, que, na falta de entimemas, é necessário servir-se de exemplos como de demonstrações, contribuindo estes para o convencimento do auditório. E mesmo quando dispomos de entimemas, convém recorrer a exemplos a título de posteriores testemunhos suplementares aos entimemas. [Neste caso,] se os usarmos anteriormente aos entimemas, transmitirão ao argumento um cunho indutivo – e a indução, salvo em um reduzido número de casos, não convém à retórica -, ao passo que, empregados posteriormente aos entimemas, atuam como testemunhos, e o testemunho é, em quaisquer circunstâncias, um elemento de persuasão. Por idêntica razão, se são colocados antes dos entimemas, é preciso dispor de um grande número deles, enquanto se são colocados em último lugar, basta um. Até mesmo uma única testemunha tem valia se for boa.

Com isso fica suficientemente estabelecido quantas espécies de exemplo existem, e de que forma e em qual ocasião devem ser empregadas.

Meios comuns de persuasão

E os camponeses lá estavam: a imensa maioria da população russa…

HILL, C., 1912-2003. Lênin e a Revolução Russa. Tradução G. Campos.  2. ed.  Rio de Janeiro: Zahar, 1967.  180p.

É corrente o paradoxo que a revolução descrita pelos bolcheviques como “proletária” tenha ocorrido num país onde oitenta por cento dos habitantes eram camponeses e onde o proletariado era – em cifras absolutas e relativas – menor do que em qualquer outra grande potência européia. O propósito do presente capítulo é examinar o modo pela qual a política bolchevique resolveu essa aparente contradição.

Não poderia restar dúvida alguma quanto às potencialidades revolucionárias do campesinato russo, desde que se encontrasse uma forma política certa de chegar a êle. Havia nas aldeias russas, como aliás houvera em todos os países europeus durante a servidão, uma tradição de que a terra pertencia por direito aos camponeses; baseava-se isso, em parte em revivescências  de uma ordem social mais livre que precedera à servidão, em parte no óbvio anseio de equidade dos que trabalhavam a terra no sentido de lhe aproveitarem os frutos. Em 1861 aboliu-se a servidão, e a terra nas aldeias foi grosseiramente dividida em duas; metade para os camponeses locais (não em regime de plena propriedade), metade para os senhores. Em resultado, os camponeses ficaram efetivamente com menos terra disponível do que tinha antes.

Pelas glebas a êles concedidas, os camponeses deveriam pagar ao govêrno, que já compensara os senhores, uma taxa anual de resgate. Essa taxa, insultante mas significativamente, recebia a mesma denominação anteriormente usada para a quota de emancipação do servo. Até que fôsse totalmente pago o “resgate”, o camponês continuava sujeito a determinadas servidões feudais. O resgate era fixado muito alto, enquanto o camponês não tardava a descobrir que recebera a pior parte das terras; o senhor geralmente ficava com tôdas as zonas de mata onde até então o camponês ia buscar a madeira e a lenha. Todos, excetuados os camponeses ricos, afundavam-se inapelàvelmente em dívidas, na esperança de saldarem aquêles pagamentos anuais – até que êstes foram afinal extintos por fôrça da revolução de 1905. Quando essas cotas foram abolidas, verificou-se que o valor das terras arrendadas ao campesinato em 1861 já havia sido pago mais de três vêzes. […]

De 1861 a 1905, a área média das possessões dos camponeses diminuiu de um têrço, essa tendência acelerou-se com o aumento da população, por sua vez devida em parte à melhoria dos serviços médicos introduzidos pelos liberais Zemstvos. Enquanto isso, a posse de um lote inadequado e a dificuldade em obter um passe amarravam o camponês ao chão tão fortemente quanto antes o amarrara o costume feudal; e assim um viveiro de trabalho barato ficava à disposição do latifundiário. A superpopulação agrária antes da revolução calculava-se em 20 milhões – isto é, econômicamente sobrava quase que um em cada cinco habitantes rurais. A partir de 1886 o senhor de terras tinha o direito de despedir seus trabalhadores, sem aviso, até por “mal-educados”, entre outras coisas; e o trabalhador não tinha direito a anular o contrato nem em caso de maus tratos – se fugia, a polícia ia buscá-lo de volta. Em 1906 passou a vigorar um dispositivo penal contra os trabalhadores agrícolas que fizessem greve.

“Embora os camponeses pagassem pela sua liberação” – escreveu Lênin – “não chegavam a ser homens livres; durante vinte anos permaneciam temporàriamente vinculado; foram deixados e continuaram a ser, até esta data (abril de 1901), a camada mais baixa da sociedade, a que podia ser açoitada, a que pagava tributos especiais, a que não tinha direito a deixar livremente a comunidade semifeudal, a dispor livremente de suas próprias terras ou a estabelecer-se livremente em qualquer ponto do país”. A capitação, rendendo 42 milhões de rublos por ano, era imposta exclusivamente aos camponeses; e dos 166 restantes milhões de tributação direta, pagavam êles 153 milhões.  […]

Assim ia tomando o camponês cada vez mais noção do Estado como poder estranho e hostil, que fazia exigências sem trazer benefício algum. Essa atitude surtia seus efeitos sôbre a evolução dos partidos camponeses, em cujas linhas políticas sempre pesou considerável dose de anarquismo. Apesar de tudo, o camponês não transferia inteiramente a sua hostilidade, do latifundiário para o Estado: se um dos seus objetivos era livrar-se da assoberbante obrigação das anuidades a pagar pela sua porção de terra, outro era tomar logo conta do resto. A divisão de 1861 tornara geogràficamente sensível a desigualdade entre o camponês e o latifundiário; o camponês via nas cêrcas em redor das terras do latifundiário um obstáculo colocado artificialmente e que êle estaria disposto a pôr abaixo na primeira oportunidade. Para o campesinato, a revolução de 1905 era “o nivelamento”. […]

Não foi por acaso, então, que os primeiros escritos substanciais de Lênin versavam sôbre o campesinato russo. O camponês era, na expressão de Turgueniev, “a esfinge de tôdas as Rússias

‘. Todos os partidos almejavam-lhe o apoio, quase todos garantiam tê-lo… conquanto poucos indícios fidedignos houvesse de que a obscura massa humana rural estaria efetivamente pensando. Os eslavófilos e os populistas romanceavam as instituições comunais decadentes da aldeia russa, que combinava a autonomia nas questões menores da vida agrícola com a regulamentação burocrática em todos os assuntos de verdadeira importância . Os liberais burgueses, com um ôlho na Europa ocidental, exaltavam os camponeses mais ricos – os kulaks: assim como seus antecessores nos séculos dezessete e dezoito exaltavam o pequeno proprietário agrícola como espinha dorsal do país, os liberaiss russos, pondo os kulaks em foco, desviavam a atenção popular da massa dos camponeses que se iam pauperizando cada vez mais. Os primeiros marxistas russos, concentrando-se por sua vez na antítese entra a burguesia e o proletariado, tendiam a não tomar conhecimento do campesinato; dirigiam sua propaganda quase tôda aos operários urbanos, em contraste com os populistas, para os quais “ir ao povo” significava ir ao camponês.

E os camponeses lá estavam: a imensa maioria da população russa. Constituiriam uma grande fôrça, em quaisquer circunstâncias. Haviam sido um fator revolucionário, no passado. Em 1774-6, um levante do campesinato (juntamente com o operariado fabril dos Urais), sob a liderança de Pugachov, assumira o contrôle de vastas áreas da Rússia nas duas margens do Volga. Antes e depois de 1861 registraram-se amotinações camponesas, as casas dos latifundiários eram incendiadas e as cêrcas postas abaixo. quando Lênin atingia a maioridade, as condições da existência para a massa humana do campo haviam-se tornado insuportáveis e a zona rural fervilhava num descontentamento pronto a explodir quase espontâneamente em 1905-7. O partido que soubesse encontrar a maneira de levantar e comandar a massa camponesa, teria consigo a fôrça mais poderosa da Rússia.

 

E os camponeses lá estavam: a imensa maioria da população russa…

A base de toda dialética

SCHOPENHAUER, A., 1788-1860. Como vencer um debate sem precisar ter razão em 38 estratagemas (Dialética erística).  Tradução Daniela Caldas e Olavo de Carvalho.  Rio de Janeiro: Topbooks, 1997.  258p.

Em primeiro lugar, deve-se examinar o que é essencial em toda discussão, o que realmente acontece nela.

O adversário ( ou nós mesmos, isto é indiferente) expôs uma tese. Para refutá-la há dois modos e dois métodos:

  1. Os modos: (a) ad rem, (b) ad hominem ou ex concessis;  isto é, demonstramos que ou a tese não está de acordo coma natureza das coisas, com a verdade objetiva, ou que não concorda com outras afirmações ou apartes do adversário, isto é, com a verdade subjetiva, relativa. Este último caso não é senão uma passagem relativa e não tem importância nenhuma para a verdade objetiva (68).
  2. Os métodos: (a) Refutação direta, (b) indireta. A refutação direta ataca a tese em seu fundamento, a indireta em suas conseqüências. A direta mostra que a tese não é  verdadeira; a indireta, que não pode ser verdadeira (69).

I) Na refutação direta podemos atuar de duas maneiras. Ou demonstramos que os fundamentos de sua afirmação são falsos  (nego majorem, minorem); ou admitimos os fundamentos, mas negamos que deles se deduz a afirmação (nego consequentiam), isto é, atacamos a conseqüência, a forma da conclusão (70).

II) Na refutação indireta, usaremos ou a apagoge (71) ou a instância. 

a) Apagoge: tomamos sua tese como verdadeira e então demonstramos o que dela resultaria se, combinando-a com qualquer outra proposição aceita como verdadeira, a adotássemos como premissa para uma dedução com a qual se chega a uma conclusão obviamente falsa, seja por contradizer a natureza das coisas ou por se opor a outras afirmações do próprio adversário. Assim, a proposição se revela falsa ad rem ou ad hominem (Sócrates, em Hípias maior e outros textos).  Por conseguinte, a proposição também era falsa, pois proposições verdadeiras procedem tão-somente de premissas verdadeiras, embora de premissas falsas nem sempre se deduzem conclusões falsas (72).

(Se com isto o adversário é diretamente levado a contradizer uma verdade indubitável, então conseguimos conduzi-lo ad absurdum.)

b) A instância, (73) exemplum in contrarium.  Refutação da proposição universal mediante indicação direta do casos particulares compreendidos em seu enunciado aos quais ela não pode se aplicar. Portanto, a tese mesma não pode deixar de ser falsa (74).

Este é o suporte fundamental, o esqueleto de toda discussão; temos portanto aí sua osteologia. Na realidade, é basicamente a isto que se reduz todo discutir. Mas isto pode acontecer realmente ou só em aparência, com fundamentos autênticos ou não e, como não é fácil estabelecer neste ponto algo de seguro, seguem-se debates longos e obstinados. E não podemos tampouco separar o aparente do verdadeiro, pois isto é exatamente o que os combatentes nunca sabem de antemão. É por isto que exponho os estratagemas sem preocupar-me com saber se têm razão objetivamente ou não, já que isto não se pode saber com certeza, só se chegando,  a descobrir por meio da contenda. Além disso, em toda discussão, ou argumentação em geral, é necessário que os contendores estejam de acordo em alguma coisa que se toma como ponto e partida para resolver a questão de que se trata: contra negantem principia non est disputandum (não se deve discutir contra quem negue os princípios).

____________________________________

68. V. Comentário Suplementar I.

69. Não é só a demonstração indireta que alega a impossibilidade da tese. A direta pode fazê-lo também, quando mostra que a tese parte de premissas intrinsecamente absurdas – faltando não somente à verdade dos fatos, mas à condição mínima de possibilidade.

70. Nego majorem = “nego a premissa maior”; nego minorem = “nego a premissa menor”; nego consequentiam = “nego a conseqüência”. São expressões correntes da dialética escolástica, que nos debates universitários da Idade Média se declarava expressamente antes de se enunciarem as refutações, para que o interlocutor soubesse de antemão por onde seu argumento seria impugnado – um requinte de cortesia e rigor que bem mostra o esp´rito de isenção e seriedade que imperava nessas discussões, bem longe de toda prestidigitação erística, mesmo quando as questões em disputa fossem bastante grave, do ponto de vista teológico e político.  Deve-se observar que cada um dos grandes tratados de filosofia escolástica é construído na forma de uma discussão dialética do autor consigo mesmo, com seus antecessores e seus colegas de faculdade: primeiro coloca-se uma questão, depois uma resposta e sua alternativa, os argumentos de um lado e de outro. depois a solução dada pelo autor, as respostas a um lado e ao outro e enfim a conclusão. Em muitos casos,ambas as respostas alternativas são concebidas pelo próprio autor – uma prática dialética que constituía verdadeira vacina contra a crença cega nas próprias opiniões, e que, curiosamente, foi abandonado pelo ensino universitário moderno desde o momento em que se passou a se gabar de ter rompido com todo dogmatismo. – Com relação à negação da conseqüência, é procedimento estritamente lógico-formal, usado em dialética, o que bem mostra a impossibilidade de traçar um limite demasiado estrito entre os dois domínios (v. Aristóteles em Nova Perspectiva, p. 42).

71. Apagoge significa a ação de levar, conduzir, arrastar, arrebatar. Aristóteles (An. pr. 1, 7, 4) usa-a para designar a condução ao absurdo, num sentido próximo ao entendido por Schopenhauer.

72. Exemplo clássico, o silogismo: “todo homem é uma pedra; Sócrates é uma pedra; logo, Socrátes é homem.”

73. enotasis = “oposição”. Não encontroo termo no Index aristotelicus de Bonitz. Suponho que derive de “unidade”. Lalande assina-o em Anal. Pr. II 26, 69ª37. A tradução por instantia consagrou-se nas versões medievais, no sentido de exemplum in contrarium, “exemplo do contrário”.

74. Isto depende, evidentemente, do grau de generalidade da tese. Se o orador diz: “No Brasil os pretos são pobres”, sem especificar se se refere a todos, a muitos ou à maioria deles, citar como exemplum in contrarium o caso de um ou sois pretos ricos não prova a falsidade da tese, mas apenas a sua relatividade.

A base de toda dialética

Sobre a viagem como cura para o descontentamento

SÊNECA. ca. 4 a.C.-65. Aprendendo a viver. Tradução Willian Li.  2. ed.  São Paulo: Martins Fontes, 2008. 165p.

Sêneca saúda seu amigo Lucílio. Pensas que acontece somente contigo e te admiras como se fosse algo de novo o fato de teres feito uma viagem tão longa e visitado tantos lugares diferentes sem que com isso aliviasse o peso e a tristeza de tua mente? Deves mudar a alma e não o lugar. Embora atravesses vastos mares e, como declama Virgílio:

Terras e cidades foram vistas por ti,¹

para onde quer que fores, teus vícios o seguirão. Da mesma forma, assim respondeu Sócrates a alguém que se dirigia a ele: “Por que te admiras de que tuas viagens não te auxiliam, uma vez que sempre te levas contigo”. Que novidade pode trazer percorrer todas as terras? Ou conhecer muitas cidades e lugares? Toda essa agitação é desnecessária. Perguntas-me por que não sentes nenhum alívio na fuga? É porque foges levando-te contigo. É preciso primeiro depor o fardo que sobrecarrega tua alma; antes disso nenhum lugar te será aprazível.

Julga que o teu presente estado é como o da sacerdotisa que Virgílio descreve; ela já está excitada e tomada de fúria, e está cheia de uma inspiração que não é dela.

A sacerdotisa está possuída; pudesse ela de seu peito expulsar o poderoso deus.²

Tu corres de um lado para outro para livrar-se do peso que te aflige. Essa própria agitação torna-o pior; acontece o mesmo na navegação: se a carga está em equilíbrio estável, ela exerce menos pressão; se está disposta de maneira desigual, ela submerge do lado que está mais pesado. Tudo isso que fazes, é contra ti mesmo; e toda essa movimentação te prejudica porque estás sacudindo um homem doente.

No entanto, quando tiveres te livrado do mal, qualquer viagem será agradável. Poderás ser exilado para os confins da terra, e em qualquer canto perdido dos países bárbaros aonde terão te levado haverá sempre para ti um lugar acolhedor. O mais importante é o estado de ânimo no qual te encontras e não o lugar para onde se vai; e da mesma forma não devemos condicionar nosso estado de ânimo a nenhum lugar. Devemos viver com essa convicção: “Não nascemos encurralados, minha pátria é toda esse mundo.” Se isto está claro para ti, não ficarás surpreso de não obter nenhum benefício dos novos lugares que busca por causa do aborrecimento dos anteriores. O primeiro lugar que te foi dado já tinha te agradado, se o considerasses inteiramente teu. De fato, tu já não viajas, mas erras e mudas de lugar sendo levado de uma parte a outra, enquanto aquilo que buscas – a arte de viver bem – pode ser encontrado em qualquer lugar. Pode haver lugar mais agitado do que o fórum? Mesmo ali, caso fosse necessário, seria possível viver tranqüilamente.  Se pudéssemos dispor livremente de nós mesmos, eu evitaria até olhar para as vizinhanças do fórum. Pois, assim como lugares perigosos ameaçam a saúde mais robusta, da mesma maneira isto acontece com a sabedoria ainda imperfeita e prestes a recair no erro: há lugares que são maléficos. Na realidade divirjo daqueles que se lançam no fluxo das coisas levando uma vida cheia de afazeres, lutando com as dificuldades da vida cotidiana e empregando nisso todo seu talento. O sábio poderia suportar todas essas coisas, mas ele não escolheria esse modo de vida; ele preferiria a paz ao combate. É inútil tentar lutar contra teus vícios quando tens de enfrentar os de outros. Tu dizes: “Trinta tiranos estavam ao redor de Sócrates, mas não puderam atingir sua alma.” Que importa quantos sejam os tiranos? A servidão é uma só. Quem a desprezar pode ter o maior número de senhores que continuará livre.

Já é tempo de terminar, não sem que antes eu pague a taxa de saída. “O início da salvação é o conhecimento do pecado.” Esse dito de Epicuro me parece ser dos mais elevados. Pois quem ignora que peca não pensa em emendar-se: é preciso que te surpreendas no erro antes de corrigi-lo. Há os que se gloriam de seus vícios; acreditas que aqueles que consideram suas faltas como sendo virtudes pensam em remediá-las? Dessa forma, tanto quanto possível, acusa-te a ti mesmo, investiga a ti. Sê primeiro o acusador, depois o juiz e apenas em último caso teu advogado. Às vezes, sê rude contigo próprio. ADEUS.

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1 Virgílio, Eneida, III, 72.

 

Sobre a viagem como cura para o descontentamento