O bom senso e a razão

DESCARTES, R., 1596-1650. Discurso do método. Tradução Paulo Neves.  Porto Alegre: L&PM, 2017.  128p.

O bom-senso é a coisa do mundo melhor partilhada: pois cada um pensa estar tão bem-provido dele, que mesmo os mais difíceis de contentar em qualquer outra coisa não costumam desejar tê-lo mais do que têm. Não é verossímil  que todos se enganem nesse ponto: antes, isso mostra que a capacidade de bem-julgar, e distinguir o verdadeiro do falso, que é naturalmente igual em todos os homens; e, assim, que a diversidade de nossas opiniões não se deve a uns serem mais racionais que os outros, mas apenas a que conduzimos nossos pensamentos por vias diversas e não consideramos as mesmas coisas. Pois não basta ter o espírito bom, o principal é aplicá-lo bem. As maiores almas são capazes dos maiores vícios, assim como das maiores virtudes; e os que andam muito lentamente podem avançar muito mais se seguirem sempre o caminho reto, ao contrário dos que correm e dele se afastam.

Quanto a mim, nunca presumi que meu espírito fosse en nada mais perfeito que os do comum; inclusive desejei seguidamente ter o pensamento tão rápido, ou a imaginação mais nítida e distinta, ou a memória tão ampla, ou tão presente, como de alguns outros. E não sei de outras qualidades que sirvam à perfeição do espírito a não ser essas: pois, quanto à razão, ou ao senso, na medida em que é a única coisa que nos faz homens e nos distingue dos animais, quero crer que ela está por inteiro em cada um; e nisso sigo a opinião comum dos filósofos que dizem que há mais e menos apenas entre os acidentes¹, e não entre as formas, ou naturezas, dos indivíduos de uma mesma espécie.

Mas não receio dizer que penso ter tido muita sorte de ter-me encontrado desde a juventude em certos caminhos, que me conduziram a considerações e máximas com as quais formei um método que penso ser um meio de aumentar gradualmente meu conhecimento, e de elevá-lo aos poucos ao mais alto ponto que a mediocridade de meu espírito e a curta duração de minha vida permitam atingir. Pois dele já recolhi tantos frutos que, muito embora nos julgamentos que faço de mim mesmo eu tenda sempre para o lado da desconfiança e não o da presunção,  e muito embora, examinando com um olhar de filósofo as diversas ações e os empreendimentos dos homens, não haja quase nenhum que não me pareça vão e inútil, não deixo de sentir uma extrema satisfação com o progresso que penso já ter feito na busca da verdade e de conceber esperanças quanto ao futuro; pois, se entre as ocupações dos homens, puramente homens, há alguma que seja solidamente boa e importante, ouso crer que é a que escolhi.

Todavia pode ocorrer que eu me engane, e talvez não passe de um pouco de cobre e de vidro o que tomo por ouro e diamantes. Sei o quanto estamos sujeitos a nos equivocar naquilo que nos toca, e também o quanto devemos suspeitar dos julgamentos de nossos amigos quando são a nosso favor. Mas gostaria muito de mostrar neste discurso que caminhos  segui, e de representar minha vida como um quadro a fim de que cada um possa julgá-la; e, recolhendo as opiniões emitidas sobre ela que este fosse um novo meio de me instruir, acrescentando àqueles que costumo utilizar.

Assim meu propósito não é ensinar aqui o método que cada um deve seguir para bem-conduzir sua razão, mas apenas mostrar de que maneira procurei conduzir a minha. Os que se metem a dar preceitos devem se julgar mais hábeis que aqueles a quem os dão; e, se falham na menor coisa, merecem ser criticados. Mas, ao propor este escrito apenas como uma história, ou, se quiserem, como uma fábula na qual, entre alguns exemplos possíveis de imitar, talvez se encontrarão vários outros que se terá razão de não seguir, espero que ele será útil a alguns sem ser prejudicial a ninguém, e que todos ficarão satisfeitos com minha fraqueza. […]

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¹ Os acidentes são qualidades capazes de afetar ou não um indivíduo, e que se pode ter em maior ou menor quantidade. (N.T.)

 

 

 

 

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O bom senso e a razão

Interpretação dos sonhos

FREUD, S., 1856-1939. O método de interpretação dos sonhos. Tradução de Renato Zwick.  Porto Alegre: L&PM, 2017.  96p.

O título que dei ao meu tratado revela a que tradição na concepção dos sonhos eu gostaria de dar continuidade. Propus-me a demonstrar que eles são passíveis de interpretação, e as contribuições para o esclarecimento dos problemas oníricos de que acabamos de tratar serão apenas um ganho acessório eventual na execução de minha verdadeira tarefa. Com a hipótese de que os sonhos são interpretáveis, entro de imediato em contradição com a teoria dos sonhos dominante e, na verdade, com todas as teorias do sonho exceto a de Scherner, pois “interpretar um sonho” significa indicar o seu “sentido”, substituí-lo por alguma coisa que se encaixe como um elo de mesmo peso e de mesmo valor no encadeamento de nossas ações psíquicas. Mas, como vimos, as teorias científicas do sonho não deixam espaço para um problema de interpretação, pois para elas o sonho não é de forma alguma um ato psíquico, e sim um processo somático que se manifesta por sinais no aparelho psíquico. A opinião dos leigos, em todas as épocas, foi diferente. Ela faz uso do seu justo direito de proceder de maneira inconsequente e, embora admita que o sonho seja incompreensível e absurdo, não consegue se decidir a lhe negar todo significado. Guiada por um pressentimento obscuro, ela parece supor que o sonho tenha um sentido – ainda que oculto -, que a sua finalidade é substituir um outro processo de pensamento e que se trata apenas de descobrir acertadamente esse substituto para chegar ao significado oculto do sonho.

Por isso, o mundo leigo se esforçou desde sempre em “interpretar” o sonho, empregando para tanto dois métodos diferentes em sua essência. O primeiro desses procedimentos tem em vista o conteúdo onírico como um todo e procura substitui-lo por um outro conteúdo, compreensível e em certo sentido análogo. Essa é a interpretação  simbólica dos sonhos; naturalmente, ela fracassa desde o princípio com aqueles sonhos que se mostram não apenas incompreensíveis, mas também confusos. Um exemplo do seu procedimento é dado pela interpretação que o José bíblico deu ao sonho do faraó Sete vacas gordas seguidas por sete vacas magras que devoram as primeiras é um substituto simbólico para a profecia de sete anos de fome que devoram toda a fartura produzida por sete anos férteis na terra do Egito. A maioria dos sonhos artificiais criados por escritores é destinada a essa interpretação simbólica, pois eles reproduzem o pensamento do autor sob um disfarce que é inventado para se adaptar às características dos sonhos que conhecemos pela experiência¹. A opinião de que os sonhos se ocupam predominantemente com o futuro, cuja configuração preveem – um vestígio da importância profética que lhes era concedida no passado -, transforma-se então em motivo para deslocar ao futuro, mediante um “acontecerá”, o sentido encontrado pela interpretação simbólica.

Naturalmente, não é possível ensinar a encontrar o caminho para essa interpretação simbólica. O êxito depende de um lampejo espirituoso, da intuição súbita, razão pela qual a interpretação dos sonhos por meio do simbolismo foi capaz de se elevar à categoria de uma arte que parecia ligada a um talento especial². O outro método popular de interpretação dos sonhos se mantém completamente afastado dessa pretensão. Poderíamos chamá-lo de “método de decifração”, visto que trata o sonho como uma espécie de escrita cifrada em que cada signo é traduzido por outro de significado conhecido de acordo com uma chave fixa. Sonhei, por exemplo, com uma carta, mas também com um funeral e outras coisas  do gênero; consulto um “livro de sonhos” e descubro que “carta” deve traduzir-se por “aborrecimento” e “funeral” por “noivado”. Fica a meu critério, então, estabelecer um nexo entra as palavras-chave que decifrei, e também vou aceitar que ele se refere ao futuro. Uma variação interessante desse processo de decifração, que em alguma medida corrige seu caráter de tradução puramente mecânica, é apresentada na obra de Artemidoro de Daldis sobre a interpretação dos sonhos³. Nessa obra, não se leva em conta apenas o conteúdo onírico, e sim também a pessoa e suas condições de vida, de modo que o mesmo elemento onírico não tem para o rico, o casado ou o orador o mesmo significado que para o pobre, o solteiro ou, por exemplo, o comerciante. O essencial nesse procedimento é que o trabalho interpretativo não é dirigido à totalidade do sonho, e sim a cada parte isolada do conteúdo onírico, como se o sonho fosse um conglomerado em que cada fragmento de rocha exigisse uma análise particular. Não há dúvida de que foram os sonhos desconexos e confusos que impulsionaram a criação do método de decifração (4).

Para a abordagem científica do tema, a inutilidade de ambos os procedimentos populares de interpretação dos sonhos não pode ser posta em dúvida por um momento sequer. O método simbólico é limitado em sua aplicação, não sendo suscetível a qualquer exposição geral. No caso do método de decifração, só importaria que a “chave”, o livro dos sonhos, fosse confiável, algo de que não há qualquer garantia. Estaríamos tentados a dar razão aos filósofos e psiquiatras e, juntamente com eles, eliminar o problema da interpretação dos sonhos como uma tarefa imaginária. (5).

No entanto,  fui dissuadido dessa atitude. Tive de reconhecer que esse também é um daqueles casos raros em que uma crença popular antiquíssima, teimosamente conservada, parece ter chegado mais perto da verdade das coisas do que o juízo da ciência hoje em vigor. Preciso afirmar que os sonhos de fato têm um significado e que é possível um procedimento científico para interpretá-los. Cheguei ao conhecimento desse método da seguinte maneira:

Há anos me ocupo da dissolução de certas formações psicopatológicas – fobias histéricas, ideias obsessivas etc.  – com propósito terapêutico; quer dizer, desde que soube, por uma comunicação importante de Josef Breuer, que para essas formações, consideradas como sintomas mórbidos, dissolução e solução vêm a ser a mesma coisa. (6)

Se conseguirmos explicar uma dessas representações patológicas pelos elementos dos quais se originou na vida psíquica do paciente, ela se desintegra, e ele se liberta dela. Dada a impotência de nossos esforços terapêuticos usuais, e diante do caráter enigmático desses estados, me pareceu tentador, apesar de todas as dificuldades, avançar pelo caminho aberto por Breuer até chegar a um esclarecimento completo. Noutro momento, terei ocasião de informar em detalhes sob a forma finalmente assumida pela técnica do procedimento e sobre os resultados de meus esforços. Foi no decorrer desses estudos psicanalíticos que topei com a interpretação dos sonhos. Os pacientes que obriguei a me comunicarem as ideias e pensamentos que lhes ocorriam a propósito de um determinado tema me narraram seus sonhos e assim me ensinaram que estes podem ser inseridos no encadeamento psíquico a ser seguido retrospectivamente na memória a partir de uma ideia patológica. Era natural tratar o próprio sonho como um sintoma e aplicar-lhe o método de interpretação elaborado para os sintomas. […]

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1.Numa novela de W. Jensen, Gradiva, descobri por acaso vários sonhos artificiais construídos de maneira perfeitamente correta e que podiam ser interpretados como se não tivessem sido inventados, mais sonhados por pessoas reais. […] (A loucura e os sonhos em “Gradiva”, de W. Jensen, Freud, 1907 a.).

2.Aristóteles afirmou que o melhor intérprete de sonhos é aquele que melhor apreender semelhanças, pois as imagens oníricas, como as imagens na água, são distorcidas pelo movimento, e aquele que é capaz de reconhecer o verdadeiro na imagem distorcida obtém os maiores êxitos (Büchsenschütz, 1868, p. 65).

3.Artemidoro de Daldis, nascido provavelmente no começo do século II de nossa era, nos legou o mais completo e mais cuidadoso estudo sobre a interpretação dos sonhos no mundo greco-romano. […]

4.O dr. Alfred Robitsek chamou minha atenção para o fato de os livros orientais de sonhos, dos quais os nossos são deploráveis imitações, praticaram a interpretação dos elementos oníricos quase sempre de acordo com a homofonia e a semelhança das palavras. Visto que esses parentescos têm de se perder na tradução para a nossa língua, surge daí a imcompreensibilidade das substituições em nossos “livros de sonhos” populares. […]

5.Depois de concluir meu manuscrito, recebi uma obra de Stumpf (1899) que coincide com meu trabalho na intenção de provar que o sonho tem sentido e é interpretável. Porém, suas interpretações ocorrem por meio de um simbolismo alegorizante, sem garantia de universalidade do procedimento.

6.Breuer e Freud (1895 d).

Interpretação dos sonhos

Como o ser humano está próximo do insano, quando escuta seus desejos intelectuais secretos!

NIETZSCHE, F., 1844-1900. Aurora: reflexões sobre os preconceitos morais. Tradução   de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. 330p.

Empatia. A fim de compreender o outro, isto é, reproduzir em nós seu sentimento, com freqüência remontamos ao motivo do seu sentimento, determinado de tal ou tal forma, e perguntamos, por exemplo: por que está ele aborrecido – para nos aborrecermos pelo mesmo motivo; mais comum, no entanto, é não fazer isso e gerar em nós o sentimento conforme os efeitos que ele exerce e mostra no outro, ao reproduzir em nosso corpo (ao menos até uma leve semelhança do jogo dos músculos e da inervação) a expressão de seus olhos, sua voz, seu andar sua postura ( ou mesmo seu reflexo em palavra, pintura, música). Então  surge em nós um sentimento similar, em conseqüência de uma antiga associação de movimento e sensação, treinada para proceder para trás e para a frente. Muito avançamos nessa habilidade de compreender os sentimentos do outro,  e quase automaticamente a praticamos na presença de uma pessoa: observe-se o jogo das linhas na face de uma mulher, como treme e se ilumina do incessante reproduzir e refletir do que é sentido à sua volta. É a música, porém, que nos mostra mais claramente que mestres somos  na percepção rápida e sutil de sentimentos e na empatia: se a música é a reprodução de sentimentos, e, apesar dessa distância e imprecisão, com muita freqüência nos faz  partilhá-los, de modo que ficamos tristes sem a menor razão para a tristeza, como verdadeiros loucos, apenas por ouvir sons e ritmos que de alguma forma lembram o tom de voz e o movimento de pessoas em luto, ou mesmo seus costumes. Conta-se, de um rei dinamarquês, que foi de tal modo lançado num entusiasmo guerreiro pela música de um cantor, que subitamente ergueu-se do trono e matou cinco dos súditos que estavam ao seu redor: não havia guerra, não havia inimigo, antes o oposto disso, mas a força que do sentimento infere a causa foi intensa o bastante para sobrepor-se à evidência e à razão. Ocorre que é esse, quase sempre, o efeito da música (supondo que tenha efeito -), e não é preciso casos tão paradoxais para notar isso: o estado de sentimento em que a música nos põe está quase sempre em contradição com a evidência da nossa situação real e da razão que percebe esta situação real e suas causas. – Se nos perguntamos de que modo a reprodução dos sentimentos de outros tornou-se tão comum para nós, não há dúvida quanto à resposta: o homem, sendo a mais temerosa das criaturas, devido à sua natureza frágil e refinada, tem no seu temor o mestre dessa empatia, dessa rápida compreensão pelo sentimento do outro (também do animal). Por longos milênios ele enxergou perigo em tudo o que era desconhecido e animado: à visão daquilo, imediatamente reproduziu a expressão dos traços e da postura, e tirou conclusões sobre o tipo de intenção ruim por trás desses traços e dessa postura. Tal interpretação dos movimentos e linhas conforme as intenções foi aplicada pelo homem até mesmo à natureza das coisas inanimadas – na ilusão de que nada existe de inanimado: creio que tudo o que chamamos sentimento da natureza, na contemplação de céu, campo, floresta, rochas estrelas, mar, temporal, paisagem, primavera, tem aí a sua origem – sem a velha prática inspirada pelo medo,  de  ver tudo conforme um segundo sentido oculto, agora não teríamos alegria com a natureza, assim como não teríamos alegria com pessoas e animais sem esse mestre da compreensão, o medo. A alegria e o agradável assombro, e enfim o senso do ridículo, são filhos temporões da empatia, e irmãos bem mais novos do medo. – A capacidade de rápida compreensão – que, portanto, baseia-se na capacidade de rapidamente dissimular – diminui em homens e povos orgulhosos, soberanos, porque têm menos temor: e todo tipo de compreensão e dissimulação é familiar aos povos temerosos; neles se acham igualmente o autêntico lar das artes imitativas e da inteligência superior.  – Se, com base nesta teoria da empatia que proponho, penso na teoria, agora favorecida e consagrada, de um processo místico mediante o qual a compaixão reúne dois seres em um, tornando possível a um a imediata compreensão do outro; se me recordo que uma mente lúcida como a de Schopenhauer deleitou-se com essa mixórdia exaltada e sem valor, e transferiu seu deleite para outras mentes claras e não tão claras – então não há limite para a minha admiração e piedade. Como deve ser grande o nosso prazer com absurdos incompreensíveis! Como o ser humano está próximo do insano, quando escuta seus desejos intelectuais secretos! – (Por que, de fato, Schopenhauer sentiu-se tão grato a Kant, tão profundamente penhorado? Isso se revelou de modo inequívoco certa vez: alguém mencionou como se podia tirar a qualitas occulta do imperativo categórico de Kant e torná-lo compreensível. Ao que Schopenhauer irrompeu: “Compreensibilidade do imperativo categórico! Pensamento radicalmente equivocado! Treva egípcia! Queiram os céus que ele não se torne compreensível! Que precisamente exista algo incompreensível, que esta miséria de entendimento, com os seus conceitos, seja limitado, condicionado, finito, enganoso; esta certeza é a grande dádiva de Kant”. (37) – Ponderemos se tem boa vontade para o conhecimento das coisas morais, quem de antemão é enlevado pela crença na incompreensibilidade dessas coisas! Alguém que ainda crê honestamente em iluminação do alto, em magia e aparições, e na feiúra metafísica do sapo!)

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37. Passagem extraida do NachlaS [Espólio] de Schopenhauer (edição Frauenstädt, Leipzig, 1864), já citado anteriormente.

Como o ser humano está próximo do insano, quando escuta seus desejos intelectuais secretos!

Ilegalidade e delinquência

FOUCAULT, M., 1926-1984. Vigiar e punir: nascimento da prisão.  42. ed.  Petrópolis, RJ: Vozes, 2014. 302p.

No que se refere à detenção pode ser privação de liberdade. O encarceramento que a realiza sempre comportou um projeto técnico. A passagem dos suplícios, com seus rituais de ostentação, com sua arte misturada à cerimônia do sofrimento, a penas de prisões enterradas em arquiteturas maciças e guardadas pelo segredo das repartições não é passagem a uma penalidade indiferenciada, abstrata e confusa;  é a passagem de uma arte de punir a outra, não menos científica que ela. Mutação técnica. Dessa passagem, um sintoma e um resumo: a substituição, em 1837, da cadeia dos forçados pelo carro celular.

A cadeia, tradição que remontava à época das galeras, ainda subsistiria sob a monarquia de julho. A importância que parece ter adquirido como espetáculo no começo do século XIX talvez esteja ligada ao fato de que ela juntava numa só manifestação dois modos de castigo: o caminho para a detenção se desenrolava como um cerimonial de suplício¹. Os relatos da “última cadeia” – verdade, as que cruzaram em todos os sentidos no verão de 1836 – e de seus escândalos permitem encontrar esse funcionamento, bem estranho às regras da “ciência penitenciária”. À saída, um ritual de cadafalso; é a selagem das coleiras de ferro e das cadeias, no pátio de Bicêtre: o forçado fica com a nuca virada sobre a bigorna, como uma estaca de ferro; mas desta vez a arte do carrasco, ao martelar, é não esmagar a cabeça –  habilidade invertida que sabe não dar a morte.

O grande pátio de Bicêtre exibe os instrumentos do suplício: várias fileiras de cadeias com suas gargantilhas. Os artoupans  (chefes dos guardas), ferreiros temporários, dispões a bigorna e o martelo. À grade do caminho da ronda estão coladas todas aquelas cabeças com um expressão indiferente ou atrevida, e que o operador vai rebitar. Mais alto, em todos os andares da prisão, veem-se pernas e braços pendurados pelas grades dos cubículos, parecendo um bazar de carne humana: são os detentos que vêm assistir à toalete de seus companheiros da véspera […] ei-los na atitude do sacrifício. Estão sentados no chão, emparelhados ao acaso e de acordo como tamanho; esses ferros de que cada um deve levar 8 libras por seu lado pesam-lhes sobre os joelhos. O operador passa-os em revista tomando a medida das cabeças e adaptando os enormes colares de uma polegada de espessura. Para rebitar uma gargantilha é necessário o concurso de três carrascos: um aguenta a bigorna, o outro mantém reunidos os dois lados do colar de ferro e preserva com os dois braços estendidos a cabeça do paciente, e o terceiro bate com pancadas redobradas e achata o cravo sob seu martelo maciço. Cada golpe abala a cabeça e o corpo […] aliás, não se pensa no perigo que a vítima poderia correr se o martelo se desviasse; esta impressão é nula, ou antes ela se desfaz diante da impressão profunda de horror que se experimenta ao contemplar a criatura de Deus num tal rebaixamento²

Depois é a dimensão do espetáculo público; segundo a Gazette des tribunaux³, mais de 100.000 pessoas veem a cadeia partir de Paris a 19 de julho: A descida da Courtille ao Mardi Gras…” A ordem e a riqueza vêm ver passar de longe a grande tribo nômade acorrentada, essa outra espécie, a “raça diferente que tem o privilégio de povoar os campos de trabalhos forçados e as prisões”. Já os espectadores populares, como no tempo dos suplícios públicos, levam avante com os condenados as trocas ambíguas de injúrias, de ameaças, de encorajamentos, de golpes, de sinais de ódio ou de cumplicidade. Qualquer coisa de violento se ergue e não para de correr ao longo de toda a procissão: cólera quanto uma justiça severa ou indulgente em excesso; gritos contra criminosos detestados; movimentos a favor dos prisioneiros conhecidos e que são saudados; defrontações com a polícia:

Abaixo o padre, diziam, abaixo esse homem execrável; deveriam ter feiDurante todo o trajeto percorrido desde a barreira de  Fontainnebleau, grupos de exaltados davam gritos de indignação contra Delacollonge: Abaixo o padre, diziam, abaixo esse homem execrável; deveriam ter feito justiça com ele. Sem a energia e a firmeza da guarda municipal, poderiam ter sido cometidas graves desordens. Em Vaugirard, eram as mulheres que estavam mais furiosas. Gritavam: Abaixo o mau padre! Abaixo o monstro Delacollange! Os delegados de polícia de Montrouge, de Vaugirard e vários prefeitos e seus assessores acorreram com a echarpe aberta para fazer respeitar a decisão da justiça. A pouca distância de Issy, François, percebendo M. Alllard e os agentes da brigada, lançou sobre eles sua gamela de madeira. Lembraram-se então que a família de alguns antigos companheiros desse condenado morava em Ivry. Desde esse momento os inspetores do serviço se escalonaram pela estrada e acompanharam de perto a carroça dos forçados. Os do cordão de Paris, sem exceção, lançaram cada um sua gamela de madeira à cabeça dos agentes, e alguns foram atingidos. Nesse momento, a multidão se encolerizou, e uns se atiravam contra os outros (4).

Entre Bicêtre e Sèvres um número considerável de casas teria sido pilhado durante a passagem da cadeia (5).

Nessa festa dos condenados que partem, há um pouco dos ritos do bode expiatorio que é surrado ao ser banido, um pouco da festa dos loucos onde se pratica a inversão dos papéis, uma parte das velhas cerimônias de cadafalso onde a verdade deve brilhar em plena luz do dia, uma parte também daqueles espetáculos populares, onde se vêm reconhecer os personagens famosos ou os tipos tradicionais: jogo da verdade e da infâmia, desfile da notoriedade e da vergonha, invectivas contra os culpados que se desmascaram, e, por outro lado, alegre confissão dos crimes. Todos procuram reconhecer o rosto dos criminosos que tiveram sua glória; folhas volantes recordam os crimes dos que se veem passar; os jornais, com antecedência, dão seus nomes e contam suas vidas; às vezes fazem a descrição deles, descrevem sua roupa, para que sua identidade não possa escapar:  programas para os espectadores (6). O povo vem também contemplar tipos de criminosos, tentar distinguir pelo traje ou pelo rosto a “profissão” do condenado, se é assassino ou ladrão: jogo de máscaras e marionetes, mas onde se introduz também, para olhares mais educados, como que uma etnografia empírica do crime. Dos espetáculos de saltimbancos à frenologia de Gall, utilizam-se, de acordo com o meio a que se pertence, as semiologias do crime de que se dispõe.

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1.  Faucher notava que a cadeia era um espetáculo popular “principalmente depois que se haviam quase suprimido os cadafalsos”.

2. Revue de Paris, 07/06/1836. Essa parte do espetáculo em 1836 não era mais pública; só alguns espectadores privilegiados eram admitidos a ela. O relato da ferração que se encontra na Revue de Paris é exatamente de acordo – às vezes com as mesmas palavras – com o de Dernier jour d’un condamné, 1829.

3. Gazette des tribunaux, 20/07/1836.

4. Ibid.

5. La Phalange, 01/07/1836.

6. A Gazette des tribunaux publica regularmente estas listas e notas “criminais”. […]

7. Revue de Paris, jun. 1836. Cf. Claude Gueux: “Apalpai todos esses crânios; cada um desses homens caídos tem por baixo seu tipo bestial […]. Eis o lobo, eis o gato, eis o macaco, eis o abutre, eis a hiena”.

 

Ilegalidade e delinquência

Há mais coisas no mundo que em toda nossa filosofia*

MORIN, E., 1921-. Introdução ao pensamento complexo. Tradução Eliane Lisboa, 5. ed.  Porto Alegre: Sulina, 2015  120p.

Chego às ferramentas que vão nos permitir conhecer o universo complexo. Essas ferramentas são, evidentemente, de natureza racional. Apenas, aqui também, é preciso fazer uma autocrítica complexa da noção de razão.

A razão corresponde a uma vontade de ter uma visão coerente dos fenômenos, das coisas e do universo.  A razão tem um aspecto incontestavelmente lógico. Mas, aqui  também, é possível distinguir entre racionalidade e racionalização.

A racionalidade é o jogo, é o diálogo incessante entre nossa mente, que cria estruturas lógicas, que as aplica ao mundo e que dialoga com este mundo real. Quando este mundo não está de acordo com nosso sistema lógico, é preciso admitir que nosso sistema lógico é insuficiente, que só encontra uma parte do real. A racionalidade, de todo modo, jamais tem a pretensão de esgotar num sistema lógico a totalidade do real, mas tem a vontade de dialogar com o que lhe resiste. Como já dizia Shakespeare: “Há mais coisas no mundo que em toda nossa filosofia”. O universo é muito mais rico do que podem conceber as estruturas de nosso cérebro, por mais desenvolvido que ele seja.

O que é a racionalização? A palavra racionalização é empregada, muito justamente, na patologia por Freud e por muitos psiquiatras. A racionalização consiste em querer prender a realidade num sistema coerente. E tudo o que, na realidade, contradiz esse sistema coerente é afastado, esquecido, posto de lado, visto como ilusão ou aparência.

Aqui nos damos conta de que  racionalidade e racionalização têm exatamente a mesma fonte, mas ao se desenvolverem  tornam-se inimigas uma da outra. É muito difícil saber em que momento passamos da racionalidade à racionalização; não há fronteira; não há sinal de alarme. Todos nós temos uma tendência inconsciente a afastar de nossa mente o que possa contradizê-la, em política como em filosofia. Tendemos a minimizar ou rejeitar os argumentos contrários. Exercemos uma atenção seletiva sobre o que favorece nossa ideia e uma desatenção seletiva sobre o que a desfavorece. Com frequência a racionalização se desenvolve na própria mente dos cientistas.

A paranoia é uma forma clássica de racionalização delirante. Você vê, por exemplo, alguém que lhe olha de modo estranho e, se você tem a mente um pouco maníaca, você vai achar que está sendo seguido por um espião. Então, você olha as pessoas suspeitando de que sejam espiões; essas pessoas, vendo o seu olhar estranho, passa,  a olhá-lo de modo cada vez mais estranho, e você se vê, cada vez mais racionalmente, cercado cada vez de mais de espiões.

Entre a paranoia, a racionalização e a racionalidade, não há fronteira clara. Devemos sem cessar prestar atenção. Os filósofos do século XVIII, em nome da razão, tinha uma visão bem pouco racional do que  eram os mitos e do que  era a religião. Eles acreditavam que as religiões e os deuses tivessem sido inventados pelos padres para enganar as pessoas. Eles não se davam conta da profundidade e da realidade da potência religiosa e mitológica do ser humano. Por isso mesmo, tinham se abrigado na racionalização, isto é, na explicação simplista do que sua razão não chegava a compreender. Foram precisos novos desenvolvimentos da razão para começar a compreender o mito. Para isso, foi preciso que a razão crítica se tornasse autocrítica. Devemos lutar sem cessar contra a deificação da razão  que, entretanto, é nossa única ferramenta confiável, à condição de ser não só crítica, mas autocrítica.

Eu sublinharia a importância disto: no início do século, os antropólogos ocidentais, como Lévy-Bruhl na França, estudavam as sociedades que supunham “primitivas”, que hoje denominamos com mais justeza “sociedades caçadoras-coletoras”, que fizeram a pré-história humana, estas sociedades de algumas centenas de indivíduos que, durante dezenas de milhares de anos, constituíram de algum modo a humanidade. Lévi-Bruhl via esses ditos primitivos, com a visão de sua própria razão ocidental-cêntrica da época, como seres infantis e irracionais.

Ele não se colocava a questão que se colocou Wittgenstein quando se perguntava, lendo o Ramo de ouro, de Frazer: “Como pode ser que todos esses selvagens que passam seu tempo a fazer ritos de feitiçaria, ritos propiciatórios, bruxarias, desenhos, etc., não se esqueçam de fazer flechas reais com arcos reais, com arcos reais, com estratégias reais?” (19). Efetivamente, essas sociedades ditas primitivas têm uma racionalidade muito grande, difusa efetivamente em todas as suas práticas, em seu conhecimento do mundo, difusa e misturada com alguma outra coisa que é a magia, a religião, a crença nos espíritos etc. Nós mesmos, que vivemos com certos setores de racionalidade desenvolvidos, como a filosofia ou a ciência, também vivemos embebidos de mitos, embebidos de magia, mas de um outro tipo, de uma outra espécie. Portanto, temos necessidade de uma racionalidade autocrítica, de uma racionalidade que exerça um comércio incessante com o  mundo empírico, único corretivo ao delírio lógico.

O homem tem dois tipos de delírio. Um evidentemente é muito visível, é o da incoerência absoluta, das onomatopeias, das palavras pronunciados ao acaso. O outro, bem menos visível, é o delírio da coerência absoluta. Contra esse segundo delírio, o recurso é a racionalidade autocrítica e o apelo à experiência.

A filosofia jamais teria podido conceber esta formidável complexidade do universo atual, tal como nós temos podido observar com os quanta, os quasers, os buracos negros, com sua origem incrível e seu devir incerto. Jamais algum pensador teria podido imaginar que uma bactéria fosse um ser de uma complexidade tão extrema. Tem-se necessidade do diálogo permanente com a descoberta. A virtude da ciência que a impede de mergulhar no delírio é que sem cessar dados novos chegam e a levam a modificar suas visões e suas ideias.

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*Shakespeare.

19. Wittgenstein, “Observações sobre o Ramo de ouro  Frazer”. Atas da pesquisa em ciências sociais, 16, setembro 1977, 35-42.

 

Há mais coisas no mundo que em toda nossa filosofia*

Pulsões sexuais*

FREUD, S., 1856-1939. As pulsões e seus destinos.  Tradução Pedro H. Tavares.  Belo Horizonte: Autêntica, 2014. 163p.

[…] Como o estudo da vida pulsional a partir da consciência apresenta dificuldades praticamente insuperáveis, a investigação psicanalítica dos distúrbios anímicos continua sendo a principal fonte de nosso conhecimento. Mas, de acordo com o seu curso de desenvolvimento, a Psicanálise apenas nos pôde dar, até o presente momento, dados parcialmente satisfatórios acerca das pulsões sexuais, pois nas psiconeuroses, como se ali ocorressem de forma isolada, só esse grupo de pulsões pôde ser estudado. Com a extensão da Psicanálise às outras afecções neuróticas, nosso conhecimento sobre as pulsões do Eu certamente também ganhará em fundamento, ainda que pareça temerário esperar que esse novo campo de pesquisas ofereça condições de observação igualmente favoráveis.

Para uma classificação geral das pulsões sexuais pode-se dizer o seguinte: são numerosas, advêm de múltiplas fontes orgânicas, agem inicialmente de forma independente umas das outras e só depois se reúnem em uma síntese mais ou menos acabada. A meta a que cada uma delas aspira é a obtenção do prazer do órgão; somente após terem completado a síntese é que se põem a serviço da  função reprodutiva, pela qual se tornam geralmente reconhecíveis como pulsões sexuais.  Em sua primeira manifestação, apoiam-se inicialmente nas pulsões de conservação, das quais apenas aos poucos se desligam, e seguem também na busca do objeto os caminhos indicados pelas pulsões do Eu. Uma parte delas segue por toda a vida associada às pulsões do Eu, dotando-os com componentes libidinais, que passam facilmente ignorados durante o funcionamento normal, surgindo de modo claro apenas a partir do adoecimento. Caracterizam-se, em grande medida, por poderem se substituir vicariamente umas pelas outras e por poderem trocar facilmente seus objetos. Devido a tais atributos, são capazes de realizações muito distantes das ações originais, orientadas a determinadas metas, (Sublimação).

A investigação sobre quais destinos as pulsões podem experienciar ao longo do desenvolvimento e da vida terá que ser por nós restrita às pulsões sexuais que conhecemos melhor. A observação nos ensina seremos seguintes os destinos da pulsão:

A reversão em seu contrário.

O retorno em direção à própria pessoa.

O recalque.

A sublimação.

Como não cogitei tratar aqui da sublimação e como o recalque demanda um capítulo (25) especial resta-nos somente a descrição e a discussão dos dois primeiros pontos. Levando-se em consideração as forças moventes que operam contrapondo-se à sequência de seu fluxo direto, pode-se também descrever os destinos pulsionais como espécies de defesa contra as pulsões.

A reversão em seu oposto, se observada com maior atenção, desdobra-se em dois processos diferentes: a passagem de uma pulsão da atividade para a passividade e a inversão de conteúdo.  Como são processos essencialmente diversos, também devem ser tratados em separado.

Exemplos do primeiro processo são dados pelos pares de opostos sadismo-masoquismo e voyeurismo (26)-exibicionismo. A reversão diz respeito apenas às metas da pulsão; sua meta ativa: atormentar, contemplar, é substituída pela passiva: ser atormentado, ser contemplado. A inversão de conteúdo pode ser encontrada no caso único da transformação do amar em um odiar.

O retorno em direção à própria pessoa se torna compreensível se considerarmos que o masoquismo é um sadismo que se voltou contra o próprio Eu, e que o exibicionismo inclui a contemplação do próprio corpo. A observação analítica não deixa dúvidas quanto ao fato de que o masoquista também frui (27) da fúria contra sua pessoa e de que o exibicionista também frui do próprio desnudamento. O essencial nesse processo é, portanto, a troca do objeto com a invariância da meta.

Com isso, não podemos deixar de notar que, nesses exemplos, convergem ou coincidem o retorno em direção à própria pessoa com a passagem da atividade para a passividade. Para esclarecer esses vínculos, torna-se indispensável uma investigação mais aprofundada.

No caso do par de opostos sadismo-masoquismo, pode-se descrever o processo da seguinte maneira:

a) O sadismo consiste em atividade de violência, dominação sobre outra pessoa como objeto.

b) Tal objeto é abandonado e substituído pela própria pessoa, também se realiza a transformação da meta ativa da pulsão em uma meta passiva.

c) Novamente, outra pessoa é procurada como objeto, a qual, em decorrência da transformação da meta ocorrida, terá que assumir o papel de sujeito.

O caso c é o que comumente se chama de masoquismo. Nele, a satisfação também ocorre pela via do sadismo original, na medida em que o Eu passivo põe-se, no plano da fantasia, em seu lugar anterior, que agora foi deixado para o outro sujeito. É bastante duvidoso que haja também uma satisfação  mais direta no masoquismo. Não parece ocorrer um masoquismo originário que não tenha surgido do sadismo de acordo com a forma descrita. (ii) A suposição da fase b se mostra como não sendo supérflua, quando se leva em consideração o comportamento da pulsão sádica na neurose obsessiva. Aí se encontra o retorno em direção à própria pessoa sem a passividade perante outra. A transformação vai só até a fase b. A ânsia em atormentar torna-se autotormento, auto punição, mas não masoquismo. O verbo ativo não passa para a voz passiva, mas para a voz média reflexiva.

A concepção do sadismo é também prejudicada pelo fato de que essa pulsão parece aspirar, junto à essa meta geral (ou melhor: no interior desta), por uma ação dirigida a uma meta  bastante específica; além da humilhação e da dominação, infligir dores. Contudo, a Psicanálise parece demonstrar que a ação de infligir dores não desempenha um papel entre as ações dirigidas a metas originais da pulsão. A criança sádica não leva a causação de dores em consideração e não a tem como intenção. Entretanto, quando se completa a transformação do sadismo em masoquismo, as dores se prestam muito bem a uma meta  masoquista passiva, pois temos todos os motivos  para supor que também as sensações dolorosas, bem como a de desprazer , alcançam a excitação sexual e produzem um estado prazeroso, podendo-se, por isso, aceitar de bom grado o desprazer da dor. Quando a sensação de dor chega a tornar-se uma meta masoquista, pode surgir também, de modo retroativo, a meta sádica de infligir dores; de modo que alguém, ao provocá-las em outrem, frui masoquisticamente pela identificação com o objeto que as sofre. Certamente em ambos os casos não se frui a dor em si, mas sim a excitação sexual que a acompanha, e, para o sádico, de modo especialmente cômodo. A fruição da dor seria, portanto, uma meta originariamente masoquista, a  qual só pode tornar-se uma meta pulsional em alguém originariamente sádico.

Visando completar o exposto, acrescento que a compaixão não pode ser descrita como resultado da transformação da pulsão no contexto do sadismo, mas como algo que exige a compreensão de uma formação reativa diante da pulsão (sobre tal diferença, ver adiante). […]

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*Continuação de : As pulsões e seus destinos.

Nota:

ii. Em trabalhos posteriores (ver: O problema econômico do masoquismo, 1924) me coloquei assumindo uma concepção oposta, lidando com problemas da vida pulsional.

Notas do tradutor:

25. Cabe lembrar que o presente texto seria o primeiro capítulo de um livro planejado para ser composto por outros onze artigos-capítulos sobre Metapsicologia.

26. Schaulust, palavra composta, teria sua tradução literal por prazer/desejo (Lust) de contemplar/ver (Schau). Preferimos o galicismo já tão difundido em nossa língua: voyeurismo.

27. geniessen: fruir, deleitar-se está associado ao substantivo Genuss, comumente traduzido por gozo, fruição; noção amplamente investigada em determinadas leituras da obra de Freud.

 

 

 

 

 

Pulsões sexuais*

Que as folhas murchem. Deixa-as cair e perder-se, e não o lamentes!

NIETZSCHE, F.,  1844-1900. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém.  Tradução Mário da Silva.  14. ed.  Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. 381p.

Já murcho e cinzento, ai de mim, está tudo o que, neste prado, não há muito, ainda era verde e colorido? E quanto mel de esperança daqui levei para as minhas colméias!

Todos esses jovens corações já se tornaram velhos – e nem, ao menos, velhos! somente cansados, comuns, acomodados.  Chamam a isso “voltamos a ser devotos”.

Ainda não há muito, via-os saírem de manhã cedo, com pés valentes; mas seus pés do conhecimento cansaram-se e eles, agora, caluniam até a própria valentia matutina!

Em verdade, mais de um deles movia, outrora, a perna, como um dançarino, a um sinal do riso da minha sabedoria; – depois, arrependeu-se. Vi-o, ainda há pouco, curvado – rastejando para a cruz.

Em volta da luz e da liberdade esvoaçavam, outrora, como as mariposas e os poetas jovens. Um pouco mais velhos, um pouco mais frios: e já estão sentados perto da estufa, amigos da escuridão e do cochicho.

Caiu-lhes o coração aos pés porque a solidão me tragou como uma baleia? Por longo tempo e ansioso, ficou seu ouvido, em vão, à escuta dos meus toques de clarim e pregões de arauto?

Ah, são sempre apenas poucos, aqueles cujo coração guarda longamente a coragem e o entusiasmo; nesses, também o espírito se conserva paciente. O resto, porém, é covarde.

O resto: são sempre o maior número, o banal, o supérfluo, os muitos-demais – todos esses são covardes!-

Mas quem for de minha espécie deparará, em abundância, com aventuras como as minhas; de tal sorte que seus primeiros companheiros deverão ser cadáveres e palhaços.

Seus segundos companheiros, porém – esses se chamarão os seus fiéis: um vivo enxame, muito amor, muita doidice, muita imberbe veneração.

A esses fiéis não deverá prender seu coração quem, entre os homens, for de minha espécie; nessas primaveras e prados multicores não deverá acreditar, quem conhece a lábil e covarde espécie humana.

Pudessem eles de outra maneira, também haveriam de querer de outra maneira. Os meios-termos estragam todo o inteiro. Que as folhas murchem – que há nisso a lamentar!

Deixa-as cair e perder-se, ó Zaratustra, e não o lamentes!  É ainda preferível soprar no meio delas com farfalhantes ventos – soprar no meio dessas folhas, ó Zaratustra, para que tudo o que é murcho fuja ainda mais depressa para longe de ti!

 

 

Que as folhas murchem. Deixa-as cair e perder-se, e não o lamentes!